31.5.09

Quebra-Cabeça - Cap. 14


Quando Nicolas terminou de contar sua historia, eu já estava seca e vestindo uma roupa nova. Não que a historia em si fosse muito longa, mas ele a contou devagar, escolhendo as palavras. Parecia que ele sentia na pele tudo o que contava.
Sai do pequeno quarto e vi Nicolas no chão. Ele estava sentado, meio encolhido. Parecia uma criança perdida e cansada, que não tinha mais forças para correr procurando pela mãe.
-Venha Nicolas, levante-se. Você é forte. Mais forte que Destino. Podemos ganhar desse babaca... Só precisamos de um pouco de tempo.
Ele olhou pra mim sem muita confiança. Minhas palavras soaram falsas até mesmo para os meus ouvidos, mas eu acreditava nelas. Acreditava que, algum dia, conseguiria me livrar de Destino.
-Você está certa.
Nicolas disse isso decidido, o que me assustou um pouco. Parecia que ele realmente tinha acreditado no que eu dissera.
-Claro que irá demorar um pouco, e você terá que fazer o que ele mandar por certo tempo. Mas no final conseguiremos Íris. Juntos!
Quando ele terminou de falar, percebi que eu mesma estava me convencendo disso. Destino nos subestimava. Éramos muito mais fortes do que ele pensava.
-Destino deixou as primeiras instruções para você. – Nicolas não estava perguntando, mas, da mesma forma, assenti. – Certo, então iremos cumpri-la.
-Não.
Ele me olhou assustado.
-Não, Nicolas, eu irei. Você não pode me ajudar. Não dessa vez.
Ele olhou para ao chão, sério. Pensei que iria contestar. Falar que eu não era capaz de fazer isso sozinha.
-Está certo então. – Ele se levantou. – Vamos.
Nicolas andou até a porta da casa. Demorei alguns segundos, mas acabei fazendo o mesmo. Parei na entrada, ao seu lado. Ele me olhou e deu um longo suspiro. Abriu a porta e me puxou pela mão sala adentro.
A adaga, a foto e o quadro de horários ainda estavam no chão. Ironicamente, pensei que aquilo podia se comparar às armas do crime sendo esquecidas ao lado do corpo falecido, ou algo do tipo. Tudo parecia estranhamente mortal.
Nos sentamos, Nicolas estudando o quadro de horários. Enquanto lia o pequeno papel, ele fazia algo que eu amava: ia trocando de expressões. Ele se tornava apreensivo, triste, tenso, mal, como se trocasse de mascaras. Tudo isso lendo apenas os compromissos de um homem. Me fascinava.
-Droga Íris, é amanha. Teremos que fazer tudo muito rápido.
No momento em que Destino me entregou o papel, estava tão eufórica que não fui capaz de olhar a data. Puxei-o da mão de Nicolas e soltei um gemido de desespero.
Era no dia seguinte.
Olhei para ele, pedindo socorro. Eu não ia conseguir. Não dava. Tinha menos de 24 horas para me preparar, e ainda não tinha nem ideia do que preparar. Minha cabeça começou a doer, meus olhos ardiam. Eu não estava me aguentando dentro de mim.
-Íris, ÍRIS! Respira, caramba. Você tava começando a ficar vermelha. Não se desespera, ok? Eu te dou umas dicas, você realmente tem que fazer essas coisas sozinha. Agora vem cá, toma um copo d’água, e eu vou te explicar o que você tem que fazer. Ah, e vá se trocar, você precisa chamar menos atenção, vá vestir uma roupa preta, não sei.
Olhei para Nicolas e me levantei, relutante. Bebi a água rápido de mais, provocando soluços indesejáveis. Enchi o copo novamente, bebendo mais devagar na segunda vez.
Fechei os olhos e relaxei os todos os músculos do corpo. O mundo não estava acabando. Eu ainda tinha tempo. Eu tenho tempo. E vou aproveita-lo.
Abri os olhos mais segura. Nada podia dar errado.
Corri para o quarto para me trocar. Nicolas estava certo, uma assassina com um vestido amarelo seria meio ridícula. Peguei um moletom preto, jogado no chão, e o vesti junto com um par de jeans. Parecia mais uma mendiga do que assassina, mas acho que isso era parte do papel.
Em silencio, voltei para a sala. Nicolas estava olhando a adaga em silencio. Sorria enquanto alisava a arma com os dedos. Parecia se lembrar de uma piada antiga, de historias de família que guardamos para os netos. Ele sorria um sorriso que parecia velho, coberto de teias.
-Nicolas?
Ele se virou calmamente, me olhando nos olhos.
-Puxa, demorou hein. Vamos logo. Vai ser tudo bem fácil, no caminho te conto o que irá fazer.
Nicolas ia falando ao mesmo tempo em que colocava algumas coisas dentro de uma sacola, eu o observava, me perguntando se algum dia iria entendê-lo.
-Venha logo Íris! – Nicolas me gritava, já do lado de fora de casa.
Andei devagar. Cruzei a porta e olhei para a bicicleta. O céu estava escuro, devia ser quase meia noite. Estremeci. Não só pelo frio. Estremeci por tudo. O desconhecido me assustava.
Assim que subi na garupa da bicicleta, tentei ter uma ideia geral do que iria acontecer. Mas o futuro parecia mais com um quebra cabeça de mil peças, e todas elas desconhecidas para mim.
Borboletas se agitavam no meu estômago. Abracei Nicolas com força.
-Estou com medo.
-Não tenha medo – Ele me respondeu. – Nada vai dar errado.
Ele estava tão confiante. Eu pensava que, após aquela surra de Destino, Nicolas se tornaria um fracote covarde, mas não. Ele estava mais forte. Mais confiante. Uma nova fonte de energia jorrava sobre ele, que parecia emanar uma luz de tranquilidade e segurança.
Lembrei-me da mulher que ele escutara a voz. A tal ‘Vida’. Eu tinha pensado que era só imaginação dele. Só que Nicolas estava insanamente diferente. Aquela historia da ‘voz revigorante’ devia ser verdadeira.
Fechei meus olhos com força. Tinha que parar de pensar de mais. Tinha que me focar no que estava prestes a acontecer.
Respirei fundo e me lembrei dos meus meses de falso treinamento, imaginando se ainda sabia manipular uma arma.
Cerrei os punhos e respirei fundo. Nada vai dar errado.
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Indico John Meyer. Comprei um CD mais antigo dele há pouco tempo, mas é super legal. A música Your Body Is A Wonderland é ótima. No violão e com letras meio melosas, Meyer detona.

26.5.09

Post de Aniversário

Não aniversário do blog. O meu!
Bem, venho aqui pedir desculpas por demorar para postar o proximo capitulo, mas também para avisar que criei um novo blog: o festanalaje.blogspot.com
Sendo assim, este ficará especialmente para a postagem de minha historia, enquanto no outro vou falar sobre outras tantas coisas.
Grande abraço, e parabéns pra mim !

9.5.09

Gritos de Agonia - Cap.13

-Eu comecei a gritar. A gritar muito. Ele agarrou meus ombros, cravando suas unhas sujas em minha pele, me rasgando, chegando a minha carne. Ele me puxava.
“-Eu tive que passar por isso, Nicolas! Passei por coisas muito piores! - Ele dizia, enquanto me levantava e me encostava em uma árvore. Me fazia encará-lo, mas eu não conseguia. Minha mente estava bagunçada, minha visão estava turva. Ele começou a bater no meu rosto.
“Me chamou de rebelde de novo, mas eu não conseguia nem mesmo perguntar o porque. Minha boca estava cheia de sangue. Eu já não enxergava mais nada, Íris. Só escutava. Escutava meus músculos gritando por piedade, berrando enquanto eram mutilados.
“Por um breve momento, Destino me olhou como se tivesse pena, como se estivesse repensando seus atos. Desviou seus olhos de mim por um momento. E aí eu fiz o pior.
“Estava perto de algumas árvores, precisava me esconder. Comecei a me apoiar nos troncos, tentando sair de vista daquele monstro. Idiotice minha.
“Destino reergueu seus olhos, me encarou. Riu como se tudo fosse uma piada.
“-Você acha mesmo que pode fugir de mim?! – Ele gritava, suas palavras se misturando aos meus gemidos de dor, enquanto ele me puxava pelos cabelos, na direção do centro da clareira. Senti ele arrancando metade do meu couro cabeludo.
“Eu não tinha mais certeza do que ele fazia. Podia senti-lo quebrando minhas pernas com chutes, enquanto na verdade ele estava me dando socos de fúria.
“Já não sentia mais nada. Só sentia dor, agonia. Respirava medo. E suava. Um suor frio, que caia em minhas feridas e fazia arder.
“Não sei porque, mas Destino resolveu parar de me bater. Sentou-se ao lado do meu corpo jogado no chão, me protegendo do sol que começava a surgir por entre as folhas das árvores, e se pôs a falar. Falou sozinho durante um longo tempo.
“Começou falando de mim. Foi me relembrando de toda a minha vida. Minha vida mesmo Íris, antes de ser apenas mais um dos ‘mensageiros do Destino’, ou seja lá o que somos. Assassinos, loucos. Sado masoquistas, talvez.
“Ele falava tudo o que eu passei anos tentando apagar da minha mente. Lembrou-me de minha família. De minha mãe, que fazia de tudo para nos sustentar. De meu pai, doente. Lembrou-me de meus irmãos, ah!, meus irmãos. Lembrou-me de todas as nossas aventuras.
“Tudo aquilo era uma tortura maior. Me lembrar do que eu tinha perdido doía mais do que qualquer real machucado que eu tinha naquele momento. Minhas entranhas começaram a chorar, já que meus olhos não eram mais capazes disso.
“Só que Destino contava de uma forma diferente. Ele contava como se todos ainda estivessem vivos. E como se ele fosse eu.
“Contou toda a minha vida fazendo com que ela parecesse uma mentira. Mentira, Íris, pois parecia que ele que tinha vivido por mim, e eu era apenas o telespectador.
“Uma brisa quente passou. Eu não escutava mais nada, Destino tinha parado de falar. Pensei que estava sozinho, mas não tinha escutado passos se afastando. Hesitava até mesmo ao pensar, com medo de qualquer coisa me perceber ali. O tempo não queria passar, a dor continuava. Parecia que algo me cutucava com uma agulha, cada centímetro do meu corpo latejando.
“Fiquei lá, esticado, com dor, por um longo tempo. Estava esperando que aquilo passasse. Tentava relaxar meus músculos.
“Aí eu escutei vozes Íris. E não era só Destino. Tinha uma voz feminina também. Parecia carinhosa, me acalmava. Eu queria poder vê-la. Seguir com ela para onde quer que fosse. Ela ria muito.
“Acho que se não fosse a voz da mulher, eu entraria em desespero. Mas continuei no chão, sem me mexer, evitando respirar.
“Eles falavam rápido, sobre algo que eu não entendia. Destino falou sobre um homem, mas ela parecia não prestar atenção. Destino gritou com a mulher, e ela apenas riu. Falou que ele não aproveitava a vida. Quando ela falou isso, senti uma luz. Aquela mulher era a Vida, Íris. Tinha que ser.
“Destino resmungou mais um pouco, ela disse um horário. Ele concordou.
“A mulher continuou falando. Ela cantava. Mas sua voz foi se distanciando. Pensei que eles já tinham saído. Infelizmente, estava enganado. Destino ainda estava lá. Mas ficou pouco. Ficou o suficiente para me chutar nas costelas novamente, e sair, murmurrando alguns xingamentos.
“Aquilo doeu Íris, mais do que eu esperava. Mas eu tinha relaxado meu corpo, acho que a voz da mulher me ajudou.
“Fiquei deitado mais um tempo. Eu já não tinha mais pressa. Lembrei-me da voz, me senti bem. Com dor, mas bem. Eu precisava escutá-la de novo. Isso que me deu a força necessária para me arrastar de volta.
“Eu segui o rastro dos sussurros da mulher. Tentei sentir o cheiro de seu som. E senti que estava no caminho de casa. Não sei como, mas senti. E aí eu cheguei até você Íris. Eu consegui."
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Indico Last Of The English Roses, música de um ex-Libertines e ex da Kate Moss. Falo de Pete Doherty, com sua voz meio arrastada, olheiras, drogas e um som agradável a todos os gostos.

28.4.09

"Como papel e pedra" - Cap. 12


Nicolas ganhou de mim três vezes. Eu ganhei cinco.
Eu não sabia o nome do jogo. Tínhamos que acertar a bola em um alvo, correr com ela nas mãos, pular, desviar e desarmar o outro. Parecia uma luta dançada. Ou uma dança lutada. E eu era boa nisso.
Nicolas fechou a cara e se dirigiu para a ducha nos fundos da casa. Disse que ia tomar um banho para se refrescar, que estava suado. Mas eu sabia que não era isso. Não completamente isso. Sabia que ele odiava perder, que precisava relaxar. Homens.
Ele saiu e eu fiquei parada. De pé, tentei esperar o tempo passar. Mas eu precisava me mexer.
Acabei me convencendo de que toda a energia de Nicolas tinha passado para mim. Corri mais um pouco, tentei alcançar os últimos raios do sol que se punha. Queria guardá-los só pra mim. Mas quando abri as mãos, apenas estrelas escorriam pelos meus dedos.
Voltei para casa vestindo minhas roupas encharcadas de suor e um cheiro horrível. Sem pensar se Nicolas ainda estava lá, corri para a ducha. Nunca precisei tanto de um banho.
Comecei a me despir antes mesmo de chegar aos fundos. Pretendia me deixar de molho até o dia seguinte, e minhas roupas por mais outross três.
Já estava com metade do corpo a mostra.
-Não temos mais nenhum pudor nessa casa? –Escutei sua voz rouca às minhas costas, em meio a leves risadas que inutilmente tentava esconder. Eu conseguia ver a cara de Nicolas falando isso, não precisava me virar para ter certeza. Mas me virei.
Ele olhou para mim com os olhos arregalados. Fez cara de crianças, fingiu se esconder e depois abriu um de seus mais belos sorrisos. E tentou me abraçar.
Desviei. Nicolas estava só de toalha. E eu não gostava de pessoas me tocando. Inclusive quando eu não vestia nada.
-Saia da minha frente Nicolas, preciso de água. –Falei, enquanto o empurrava para o lado, tentando entrar no pequeno quarto com o chuveiro.
Fechei a porta com pressa, tranquei-a e corri para o banho.
A água estava gelada. As gotas caiam curiosas em minha pele, me cortavam com a baixa temperatura.
-Não vai querer saber minha historinha? Ou o trato já esta desfeito e você jogou sem querer algo em troca? Aposto que está morrendo de curiosidade.
Eu queria saber. Eu estava louca, morta, com um universo e meio de curiosidade de remexendo dentro de mim. Não queria que Nicolas percebesse.
-Claro que quero saber.
Ele estava do outro lado da porta. Devia estar forçando a fechadura para entrar, eu tinha certeza de que ele não gostaria de ficar do lado de fora. Não queria que ele entrasse. Poderia contar de onde estava.
-Não vai abrir a porta?
-Não. Conte-me de onde está. E ande logo, conte enquanto estou de pé, pois já já me deito.
-Já que quer assim... –Ouvi passos se distanciando. Como era sacana.
-Pare de suspense Nicolas. Sei que ainda está com a orelha colada na porta.
Ele soltou um palavrão abafado e depois riu alto para disfarçar.
-Vejo que está cada vez mais esperta, querida Íris. Acredito que grande parte dessa esperteza seja de minha influencia.
-Sendo sua ou não, não ligo. Apenas me conte o que aconteceu.
-Está bem. Mas antes eu arrumaria algum lugar para sentar. Você está prestes a ouvir uma longa historia. Cuidado com os pesadelos, minha pequena.
Sentei no chão, sob a água. As gotas quicavam em meus ombros, molhavam meu cabelo. Faziam um som infantil. As palavras se derretiam, amargamente doces. Eu chegava a sentir o gosto. Adorava historias.
-Destino chegou cedo hoje, bem antes de você acordar. Ainda havia lua no céu - Assim Nicolas começou, narrando cuidadosamente sua historia.
-Quando abri os olhos, acordado por um frio repentino, vi seu vulto negro sentado no chão. Demorei para levantar-me, pois você me abraçava, e eu não queria te acordar. Mas como você me segurava forte! Levantei-me e fui em direção de Destino. O ar chegava a fazer mais barulho que nossas vozes em meio a uma conversa.
“Em um momento, quase começamos a gritar. Destino e eu não nos entendemos muito bem, devíamos estar discutindo por alguma bobagem. Tão bobagem que nem me lembro agora. Quando começamos a levantar a voz, ele me segurou pelo braço e me puxou para fora da casa. O ar me cortava. Andamos durante bastante tempo, rumo à uma floresta. Destinou usou um caminho difícil, dando voltas e andando rápido, fazendo com que eu não me lembrasse de como voltar.”
-Então você não foi dar uma volta?
-Deixe-me terminar, Íris!
“Certo. Bem, depois de tanto andar, acabamos chegando a uma clareira na floresta. Destino me olhou com ódio, e me bateu uma primeira vez.
“Sempre imaginei Destino como um velho. Mas seus punhos eram duros como aço, e estavam mais frios do que a noite, me cortavam. Ardiam e queimavam. Nunca um soco doeu tanto. E era uma dor que não acabava.
“Começou um longo sermão. Destino adora falar, adora que prestem atenção em suas palavras difíceis e em seus enigmas.
“Primeiro ele me disse coisas sem sentido, sobre leis, contratos, acordos. Falou que eu estava contra tudo e todos, que eu era um rebelde. Eu não entendia nada. As palavras não faziam sentido, e eu ainda estava tonto de dor.
“Foi então que olhei diretamente para Destino, e prestei atenção em sua figura.
“Ele estava sem capa Íris, sem nada. Eu pude ver seu corpo branco e enrugado. A pele fina, como papel. Eu podia jurar que, com o minimo movimento, ele se ragaria. Mas ainda assim parecia esculpido em pedra.
“Destino me olhou, mas eu já não prestava atenção. Me bateu novamente, eu sentia mais dor. Parecia que Destino ia arrancar meus braços.”

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Não sei como ainda não indiquei Beirut. É um estilo meio folclorico e muito alternativo. Vale escutar Nantes e Elephunt Gun.

20.4.09

Corrida - Cap. 11


Fiquei parada por um longo tempo, estática. Pálida. Não estava conseguindo digerir as novas instruções de Destino.
Peguei a foto e o quadro de horários no chão. A adaga podia ficar lá, não queria tocar nela tão cedo.
Observei a imagem do homem em minhas mãos. Ele continuava tristemente feliz. Eu estava com pena dele. Ele não tinha nem ideia do que iria acontecer.
Como eu gostaria de ser outra pessoa. Ou de ser alguém a mais, ser duas pessoas. Aí poderia lutar comigo mesma. Impedir que meu primeiro eu matasse.
Mas isso era complicado demais.
Desviei minha atenção para o outro pedaço de papel. Era um quadro de horários comum, lembrava aqueles de escola. Havia a hora de ler jornal, o almoço, pegar o filho na escola. Assim se seguia, até as 11 da noite.
Às 11 da noite estava escrito morte.
Ouvi passos do lado de fora da casa. Não passos, era mais um rastejar. Parecia um animal. Mas o som era muito alto para ser um animal.
Quem poderia ser? Ninguém ia até aquela casa, mas nenhuma pessoa anda como um animal. E Nicolas tinha ido dar uma volta, como Destino disse.
Peguei a adaga no chão.
Andei em silencio até a porta. Nem mesmo eu consegui escutar meus passos.
Eu estava começando a sentir medo. O barulho chegava cada vez mais perto. Abri a porta.
Era Nicolas. Um Nicolas quase que irreconhecível.
Ele estava com o rosto coberto de sangue, inchado e roxo. Os braços arranhados e uma perna quebrada. Pelo menos eu não me lembro de ter visto pernas viradas de uma forma tão estranha.
Corri até ele para ajudá-lo. Cada vez que eu tentava levantá-lo, ele gemia de dor.
Carreguei-o até dentro da casa. Uma trilha de sangue nos seguia.
Deitei Nicolas no chão e me pus a pensar. Não tinha ideia do que fazer naquele momento.
Não tínhamos telefone, e demoraria até chegar a cidade.
Além disso, já não éramos completamente humanos. Então os médicos poderiam achar algo estranho no corpo dele, e nenhuma mentira vinha a minha mente para confundi-los.
-Então Nicolas, o que vamos fazer agora?
Eu não esperava resposta. Era uma pergunta retórica. Mas, mesmo assim, Nicolas respondeu.
-Me de água, só isso.
Entre gemidos, ele formou a frase. Achei incrível eu ter conseguido entender aquela serie de grunhidos.
-Ande logo Íris!
Me levantei e corri ate a cozinha. Peguei o ultimo jarro de água fria. Essa coisa de viver longe de supermercados era trabalhosa.
Corri para Nicolas e coloquei o jarro em suas mãos. Ele estava tentando se levantar.
-Agora saia.
Ele disse assim, curto e grosso. Mas não o contestei. Ele estava machucado, com dores. E de mal humor.
Sai da casa devagar. Ainda esperava que ele mudasse de ideia e me pedisse ajuda.
Mas ele não pediu. E assim que eu fechei a porta, ele começou a gemer mais alto. Chegou a gritar de dor. Mas isso não durou nem um minuto.
Assim que a tortura parou, a porta se abriu e ali estava Nicolas, alto, belo, forte e sem cicatrizes, como sempre.
-Você ta... Ótimo!
-É. Essa coisa com o Destino até que tem seus pontos positivos.
Minha língua coçava. Eu estava louca para saber o que realmente tinha acontecido. Mas ele não queria contar. Eu não tinha perguntado, mas se eu tivesse me machucado daquela forma, acho que não gostaria de contar os detalhes para um curioso alheio.
Ele parecia estar feliz com o ‘sucesso’ de sua recuperação.
Assim que passou por mim, começou a correr. Correu rápido, correu pulando, correu de costas, me olhando.
-Então, Íris, estamos muito parados. Vamos dar uma volta hoje, que tal? Jogar bola, correr?
Mais um louco para minha vida. Nicolas devia estar pirando. Há 5 minutos, ele estava jorrando sangue por cada centímetro do seu corpo. Agora estava assim, normal, e com mais energia que nunca.
-Certo. Podemos jogar bola. Mas-
-Mas o que?
-Mas depois você terá de me contar o que aconteceu com você.
-Tá bem. Pegue uma bola dentro de casa. E prepare-se para perder.
Ele deu uma risada sonora. E começou a correr novamente.
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Indico Keane. Os caras fizeram um show no Brasil mes passado e tem uma presença de palco incrivel. A musica tambem é legal. As que eu mais gosto são Pretend That You're Alone e Perfect Symmetry.

13.4.09

'Ser brega é bom' - Cap. 10


Dormimos juntos naquela noite. É certo que sempre dormíamos juntos. Porém, dessa vez havia um sentimento. E eu gostava daquele sentimento. Não o sentia desde Zach.
Acordei com o sol entrando pelas frestas da porta. As janelas estavam vedadas por pesados tapetes, velhos e empoeirados. A luz era forte, e o vento era frio. Me estiquei para abraçar Nicolas.
-Nicolas?!
Ele não estava lá. Não liguei. Estava cansada e precisava dormir.
-Bom dia raio de sol. Não vai se levantar?
Sorri, pois parecia Nicolas falando. Depois meu coração disparou, parecia que ele estava prestes a sair pela minha boca. Levantei-me num pulo.
-Destino? Demorou um pouco demais, não acha? – Minha voz parecia arranhada, eu fazia força para ela sair com naturalidade.
-Me demorei, sim. Mas demorei porque você não fez o que eu mandei. Esperava que uma hora caísse a ficha e você começasse a treinar, mas vejo que não.
Como sempre, Destino estava envolto em seu manto preto. Eu odiava aquele pano.
Era sujo, fedia. Parecia que ele nunca o tirava, que nunca usava algo novo.
Mas dessa vez sim. Ele carregava uma bolsa de lona, verde, velha. Estava meio vazia. Fiquei curiosa.
Destino me olhou com uma cara estranha, de quem estava com muita pressa. Demorei para entender, mas como se passarinhos e borboletas tivessem soprado em meu ouvido, percebi que ele queria que eu me arrumasse.
Corri para um pequeno quarto que tinha a porta meio escondida por alguns caixotes e remexi nas maletas de roupa que Nicolas tinha trazido no dia anterior.
Haviam muitas peças estranhas, diferentes. Algumas mais retrôs, outras roupas mais futurístas. Todas com muitos fios e panos, complicadas de se vestir. Acabei escolhendo uma calça de veludo vinho e uma blusa preta, cheia de babados. É bom ser brega às vezes. Corri para a sala.
Destino já tinha se acomodado. Sentara no chão frio , sem ligar muito. Jogara a bolsa de lado, fazendo com que algumas pastas e vários papeis ficassem visíveis.
Sentei-me na frente dele, encarando-o.
-Não vou ficar enrolando. Dessa vez tenho pressa, você me fez esperar demais. Já se passaram 4 meses desde as primeiras instruções, e eu geralmente não demoro tanto.
Ele remexeu na bolsa e pegou a foto de um homem.
Ele era mais velho, lá pela casa dos 50. Tinha o rosto marcado, os olhos sábios. Estava sorrindo. Porém, os cantos de sua boca eram virados para baixo, o que fazia com que, mesmo sorrindo, ele parecesse triste.
Parecia que ele estava sofrendo. E muito.
-Este é Joannes.
Destino só estava me dizendo o nome do homem, só isso. Ele não queria que eu fizesse o que eu estava pensando, não queria. Era só minha imaginação.
Destino retirou uma adaga de dentro da bolsa. Era longa, brilhante, parecia que tinha sede de sangue. Chegava a ser bonita.
-E esta –ele girou a arma nos dedos -é adaga que você irá usar para matá-lo.
Era o que eu pensava. Porcaria.
Eu queria esquecer aquelas instruções e fingir que nada tinha acontecido. Minha cabeça se perdeu em um mar de pensamentos confusos durante um longo tempo. Imagens demasiado coloridas e em preto e branco apareciam e desapareciam. Rostos familiares e desconhecidos sorriam para mim.
Acabei acordando de meus devaneios.
-Cadê Nicolas?
-Ah, claro, Nicolas. Vejo que os dois já se conhecem. Até mais do que deveriam. Saiba que Nicolas foi dar uma volta, Íris, só isso. Uma volta.
Não respondi.
-Menina tola. Você não sabe as surpresas que seu destino guarda.
Ele riu da própria piada.
Não vi a menor graça. Eu traçava meu destino, as estrelas não tinham nada a ver com isso. Nada tinha alguma coisa a ver comigo.
Destino se levantou e pegou a bolsa.
Deixou no chão a adaga, a foto, e um outro papel. Um quadro de horários, pensei.
-Mas eu sei.
Ele disse, com sua voz rouca e cortante, cavernosa, segundos antes de sair pela porta da frente.
Uma brisa gelada passou por mim. Estremeci.

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Indico The Killers. É uma banda mais conhecida, mas o ultimo CD deles tá fantastico.

9.4.09

Feliz Pascoa !

Vou viajar nesse feriado, mas vou levar meu caderninho. Pode ter certeza de que vou voltar com um capitulo novo.
Desejo uma Feliz Pascoa com bastante chocolate - àqueles que gostam, claro.
Beijos.

8.4.09

Livros - Cap. 9


Eu deixei a caixa cair no chão. O mesmo aconteceu com a câmera. E acho que fui infeliz e acabei conseguindo quebrá-la.
Fiquei com muita raiva de mim mesma. Estragar aquela maquina de Polaroid, que nem era minha. Mas eu também estava com medo, muito medo. Ainda não tinha olhado para a porta, mas já imaginava quem estava lá.
Era Nicolas, tremendo, rodeado por sacolas de compras e trouxas de pano jogados no chão. Eu pude perceber as mais diversas frutas. Também haviam livros, livros lindos.
Livros grossos, de capa dura em veludo e com o titulo pintado em ouro. Eu queria tocá-los, eu precisava saber quais segredos eles escondiam.
-Íris? – Nicolas chamou por mim novamente. Eu estava tão entretida com os livros que acabei me esquecendo do medo e de meu companheiro. Olhei para ele com os olhos arregalados.
-Íris, porque você estava mexendo nas minhas coisas? Hein, porque? O que você viu?
-Pare com isso Nicolas. Não gosto que fiquem me perguntando de mais, isso me deixa tonta. Eu mexi porque eu quis, e vi o que meus olhos quiseram ver.
-O que seus olhos quiseram ver?
Ele parecia assustado, mas acho que queria fingir que estava tudo normal. Começou a arrumar as coisas caídas no chão. Ele ainda tremia.
-Eles quiseram ver um papel. Que eu tenho igual. E quiseram ver algumas fotos. Você é louco, porque tira fotos de pessoas dormindo? Onde você arrumou fotos minhas?
Enquanto falava, não tirei meus olhos do rosto dele. Ele hesitava em me encarar.
-Certo Íris, acho que devemos conversar.
Eu ri. Meu riso soou como folhas de papel se rasgando. ‘Você acha’, eu disse.
Ele pegou os livros de uma forma desajeitada, parecia que eles iam despedaçar. Quase que eu levantei para arrancá-los dos braços de Nicolas, mas me segurei.
Comecei a batucar no chão com meus longos dedos. O barulho era seco. Eu estava impaciente. Nicolas fez com que alguns minutos parecessem horas. Demorou, mas ele acabou sentando-se ao meu lado.
-Eu também trabalho com Destino. Eu também achei que minha vida tinha se acabado. Também me iludi, chorei, odiei e matei. Só que foi há bastante tempo atrás. Agora sou apenas eu.
-Como assim Nicolas? Há quanto tempo? Vamos, me conte, está me deixando curiosa.
-Minha historia não é interessante agora. Mas posso dizer que a primeira vez que me encontrei com Destino foi há uns 30 anos atrás. Eu fiz tudo que ele pediu. Ele me pedia pra matar, eu matava. Já não sentia remorso porque eu tava muito triste – tinha perdido toda minha família, amigos e inimigos em um acidente -, mas aí ele me mostrou você. Você seria meu próximo alvo. Mas eu não consegui.
Ele ficou um bom tempo olhando as próprias mãos. Uma lágrima caiu. Eu não gosto de homens chorando. Não que eu não ache chorar coisa de macho, porque chorar é humano, mas eu não sei consolar ninguém. Eu não sabia o que fazer. Então eu sorri. E só.
-Você está sorrindo. É porque não entende pelo que eu passei.
É, vou anotar. Nunca mais sorrir enquanto alguém chora.
-Íris, você se parece demais com uma pessoa muito especial que eu perdi, eu não podia te matar. E eu passei 3 longos anos me torturando e sendo torturado por Destino para te matar. Mas eu não consegui. Aí você foi e causou sua própria morte. Pelo menos agora posso ficar perto de você.
-Minha própria morte? Não, não fiz nada disso. Eu nem sangro mais.Acho que Destino só começou a gostar de mim. Ele meio que me salvou.
Nicolas suspirou e me encarou. Seus olhos brilhavam de fúria. Ele segurou meu rosto entre suas mãos e começou a falar. Ele estava falando grosso, muito grosso. Sua voz ficava chata daquela forma.
-Íris, entenda. Ele sabia que você não ia aguentar, que uma hora ia se entregar. Quando você chegou em casa após matar Amadeo, ele achou que você ia morrer. Mas ele estava errado, você é forte. Eu pretendo te ajudar Íris, querida, vou te ajudar em todos os momentos. Eu já não tenho saída, pois já faz muito tempo desde que Destino me transformou nessa coisa. Mas você ainda pensa, ainda sente algo, mesmo que pouco.
-Então você é tipo um anjo, assim, um ‘anjo-demonio’, que veio para me ajudar, certo?
-Certo.
-Ah, que bom. Eu pensava que você ia me matar ou algo assim.
Ele riu. Eu ri junto. Que pensamento bobo, esse meu. Nos abraçamos. E Nicolas me beijou.
Eu me assustei e o empurrei para longe. Afastei-me. Como homens podem estragar tudo em questão de segundos!
Foi então que me lembrei dos livros. Eu tinha que vê-los. Precisava.
-Porque você trouxe esses livros?
Peguei o maior e mais pesado. A capa era de veludo roxo. Havia apenas o nome do autor impresso. Abri.
As paginas eram grossas, as letras, lindas. Tinham desenhos por todos os lados, princesas pintadas que emanavam uma energia tão maravilhosa. Era um livro de contos de fada, mas eu não conhecia esse.
Folheei os outros cinco livros. Todos lindos, seguindo a beleza e delicadeza do primeiro, com historias desconhecidas e que me fascinavam.
-Você disse que gostava de Contos de Fada – Disse Nicolas -, mas eu acho que Branca de Neve anda muito ultrapassada. Fui na casa de um velho conhecido e peguei esses livros emprestados. Achei que você ia gostar.
Ele estava certo. Eu tinha adorado.
Peguei novamente o livro com a capa roxa, puxei a mão de Nicolas e fui andando para fora da casa.
O sol estava preguiçoso, se recusando a se deitar no horizonte. A luz estava bonita.
Me sentei na entrada. Nicolas fez o mesmo. Abri o livro e comecei a ler, me deliciando com a historia. Meus dedos demoravam-se nas paginas, contornando as ilustrações.
Olhei para Nicolas, sorrindo. Ele me olhou de volta. Me beijou novamente. E dessa vez eu não fugi.
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Indico The Kooks. Qualquer musica deles é bem vinda.

2.4.09

Polaroid - cap. 8

Ficamos horas conversando. Falávamos sobre a nossa vida. Sobre a vida de outros.
Discutimos sobre política, musica, cinema, arte. Ele fez alguns truques de mágica e me contou piadas. Eu dancei para ele.
Quando resolvemos sair de casa para ver o por do sol, nos assustamos. A lua já estava alta no céu, e as estrelas brilhavam como nunca.
Rimos do tempo, de nos mesmos. Tudo estava passando rápido de mais.
Quando nos demos conta de que a comida tinha acabado, uma semana já tinha passado desde o dia em que Nicolas batera em minha porta. As horas estavam parecendo segundos.
Nicolas foi a cidade, comprar algumas coisas para comermos. Ele me chamou para ir junto, mas eu não quis. Naquela manha, eu tinha visto um pedaço de papel que me trouxe péssimas lembranças. Avisei-o que não gostava de temperos nem de peixe, e falei que podia demorar o tempo que quisesse.
-Ok, mas quando eu voltar, quero ver essa casa linda. Vou preparar um almoço maravilhoso. Ah, também vou trazer algumas roupas, você ta horrível vestindo esses trapos.
-Nicolas, onde você vai arrumar todo esse dinheiro?
-Até mais tarde, Íris querida!
E ele saiu.
Eu gostava de ficar sozinha. Realmente gostava. Quando eu ficava sozinha, podia pensar em tudo que eu não pensava quando estava perto de outros. Tinha medo que os outros escutassem meus pensamentos.
Enquanto esperava Nicolas, eu fiquei pensando. Fiquei lembrando do tempo em que ainda podia pensar com o calor dos sentimentos.
O tempo passou. O sol já começava a baixar no horizonte, e Nicolas não chegava. Eu estava parada na mesma posição há horas, só pensando. Tinha que me mexer.
Levantei-me e resolvi arrumar a casa. Era a única coisa que eu podia fazer naquele momento.
Tirei os montes de lixo e coloquei pra fora. Mudei a poeira de lugar e peguei algumas roupas molhadas que estavam no varal. Olhei para o céu.
Ele estava triste, vermelho. Com cara de chuva. Com cara de perda.
Organizei meu pertences em pequenas prateleiras. Desorganizei e organizei novamente. Fiz esse mesmo processo outras três vezes, até decidir que era melhor deixar tudo dentro de minha mochila e só tirar quando necessário.
Foi então que o vi novamente.
Entre os poucos objetos que Nicolas havia trazido consigo, havia um pequeno pedaço de papel amassado. Intrigante.
Comecei a remexer naquelas pequenas tralhas. Cada vez eu achava aquilo tudo mais fascinante. No começo, eu pensara que ele tinha trazido apenas lixo, algo para comer, uma muda de roupa. Mas não.
Haviam diferentes tipos de pulseiras e brincos, uma carteira vazia, uma pedra em forma de flor, e uma flor dura como pedra. Peguei o papel com cuidado, com medo de que qualquer sopro pudesse enviá-lo para longe.
Desdobrei-o e li. Droga.
Estava escrito ‘Treine’. Da mesma forma que estava escrito no meu guardanapo sujo. Com as mesmas letras garrafais, como que em uma briga, de tão garranchadas que eram. É, eu não era a única.
Fiquei meio zonza no começo e minha cabeça se confundiu. Destino conversava comigo de uma forma que fazia com que eu me sentisse especial. Não especial, mas única.
E agora eu sabia que não era.
Mas até que fazia um certo sentido.
Nicolas não era um cara normal. Isso era óbvio. Ele nunca tentou se aproveitar de mim.
Ela era cínico. Tinha um sorriso sádico. Os movimentos leves, mas como se estivesse preso. Ele era tão parecido comigo. E isso começava a me assustar.
Comecei a mexer no resto das coisas dele. Havia ainda um canivete suíço com um pouco de sangue seco, um bloco de notas e uma caneta.
Mas o que mais me chamou atenção foi um objeto maior, preto, meio empoeirado.
Era uma câmera de Polaroid, bem suja e antiga, mas ainda funcionava. Eu nunca tinha visto uma câmera como aquela antes.
Peguei-a, tirei uma foto minha, tirei fotos da casa. Tirei uma foto minha novamente.
Também encontrei uma caixinha.
De papelão e não muito grande, ela guardava varias fotos. Fotos de pessoas, em geral.
Sempre que aparecia uma pessoa, havia uma sequência de fotos só dela, até uma ultima, que era igual para todos os outros. Era a pessoa dormindo.
Tinha de uma mulher loira correndo, almoçando, rindo. E dormindo. Um senhor chorando, lendo, pensando, e dormindo.
Haviam muitas fotos. Muitas fotos mesmo.
Eu já devia ter visto umas 100 diferentes. E cheguei em um grupo de três polaróides especiais que me chocou. Era eu. Rindo, dançando e olhando para o fotografo. Quem era o fotografo? Não era Nicolas, eu ainda não era Íris, ‘a monstra’ naquelas imagens.
Coloquei as outras fotos minhas junto com aquelas outras.
A porta se abriu com um estrondo.
-Íris?
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Indico Denimor. Escute Fabulous Fantabulous em www.myspace.com/denimor

28.3.09

Como gosto de escolher maçãs - cap. 7


Lá estava ele, parado em minha porta, com o vento acariciando seus cabelos.
Era o cara do bar, parado, na minha frente.
Quando bati meus olhos naquele rosto tão familiar, senti meus joelhos cederem. Borboletas começaram a voar na minha barriga, e se eu tentasse falar alguma coisa, provavelmente nada sairia.
Ele estava lindo sob aquela luz. Pela pouca distancia, percebi que seus olhos eram verdes. Como os meus. O cabelo estava mais denso, o rosto um pouco sujo, mas ele continuava lindo. Aí ele riu.
Eu me assustei, me assustei muito com aquele som. Parecia comigo.
Larguei a porta e dei alguns passos para traz. Acabei prendendo o pé em um buraco. Ótimo, estava prestes a me espatifar no chão na frente do cara do bar.
Mas não, ele conseguiu me segurar. Como que em uma dança, ele me segurou pela cintura e me puxou de volta para si. Me abraçou e sorriu.
-Eu estou te esperando há tanto tempo.
Ele era encantador de mais. Fatal de mais. Porém, eu estava começando a duvidar de que ele era apenas humano. Fiquei com medo de que fosse um disfarce qualquer de Destino.
Tentei me separar um pouco, mas ele era incrivelmente forte, e cada vez que eu o empurrava, mais ele me apertava.
-Anda, me solta logo de uma vez. Já sei quem você é, pare de brincar.
-Já sabe quem sou? Como?
Ele me soltou, mas como eu estava empurrando-o o tempo todo, acabei caindo no chão. Algo assim tinha que acontecer, sempre.
Sem perder toda a classe que eu nunca tive, me levantei e me coloquei numa pose que devia impor alguma autoridade. Comecei a falar.
-Não adiante Destino, você é muito bobo. A gente já se conhece há tempo suficiente para eu saber que você se fantasia. É meio ridículo isso, no final você sempre vai me mandar fazer algo ruim. Agora, por favor, volte a ser como é que esse seu novo rosto me incomoda, e aí sim poderemos conversar.
O cara do bar me olhou, tossiu de alguma forma estranha, me olhou de novo. Parecia que ele queria vomitar.
-Certo, acho que meu disfarce não funcionou. Mas não irei tirá-lo por enquanto. Eu só gostaria que você fosse colher algumas maçãs para mim, assim poderei te ensinar algumas coisas.
-Hmm... então finalmente saberei como envenenar uma maçã?
-E se você ficar boa nisso, posso te ensinar a roubar sapatinhos de cristal.
Rimos juntos, eu adorava contos de fada. Desde criança, esse era o tipo de coisa que eu lia para me animar nos piores momentos. Estava gostando desse novo Destino.
-Corra menina, eu não tenho todo o tempo do mundo. Corra e traga-me as maçãs mais vermelhas e suculentas.
Continuei a sorrir. Sai de minha casa e corri pelo campo que tinha em frente. Dei voltas e voltas pelo lugar, pensando naqueles olhos verdes e no dialogo. Pensei na nossa conversa o tempo todo. Acabei me esquecendo que a única macieira que havia por perto ficava a alguns quilômetros de distancia, então acabei demorando um pouco mais que o normal.
Cheguei ao pé da arvore com algumas gotas de suor em minha testa.O sol estava forte, ofuscando meus olhos e deixando o resto dos animais com preguiça para sair de suas tocas aconchegantes.
Colhi a primeira maçã, vermelha e gorda, e a deixei no chão. Me agarrei aos galhos, cortando joelhos e dedos no esforço de subir.
A arvore já era velha e seca. Achava um milagre ela ainda dar frutos.
Consegui 7. Sete belas maçãs, enormes, vermelhas. Pareciam deliciosas, mas não me atrevi a experimentar uma sequer.
Segurei-as em meus braços e voltei, caminhando com pressa, com medo de que as frutas caíssem no chão. Mesmo que fossem para mim, se alguma delas se amassasse ou coisa do tipo, eu não ia me perdoar. Estavam bonitas de mais.
Cheguei suada, suja, e com as maçãs intactas. Sorrindo, coloquei-as sobre um pano estendido no chão e olhei para o cara do bar. Ele me olhou, se divertindo. Novamente, parecia que ia vomitar.
-O que houve, você não gosta de maçãs? Me mandou pegar algumas, mas nem irá tocá-las?
-Não é isso. É que você caiu. Achava que Destino escolhia melhor seus ajudantes.
-Mas você não é Destino?
-Na verdade não, não sou. Sou Nicolas. Não se assuste por eu saber muito sobre você. Ando te observando há algum tempo. E posso dizer que te entendo, pois passei - e ainda passo – pelo seu mesmo dilema.
Seu nome era Nicolas. Ele provavelmente também tinha sido vitima de Destino. Mas uma coisa ainda não se encaixava na minha cabeça.
-Porque pediu que eu trouxesse maçãs?
-Eu gosto de maçãs. E de contos de fada, se não percebeu.
Eu gostava cada vez mais de Nicolas, tinha certeza de que seriamos bons amigos. Sorri para dentro e comecei a brincar com uma fruta.
Ele riu novamente, pegou uma maçã, e comeu.
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Agora, alem da historia, vou indicar uma musica/banda que eu gosto. Dessa vez, vou indicar o Rodrigo Del Arc. A musica 'Trip' é uma das minhas favoritas. Você pode escutar em www.myspace.com/rodrigodelarc

15.3.09

Sentimentos - cap. 6

Foram três meses nessa rotina estúpida de brincar de assassina. Depois que me cansei da veterinária, resolvi ir caçar num bosque perto da cidade. Também me cansei disso.
Não consegui passar nem uma semana no açougue. Transformava todas as carnes em pequenos cubos, o dono me chamou de louca.
No segundo mês eu resolvi parar com tudo. Parei de trabalhar, larguei a escola, nunca mais falei com meus amigos. As vezes eu os via na rua, eles me encaravam e cochichavam entre si, mas nunca chegavam perto.
Passei a assistir mais televisão, ficava vendo seriados de detetives o dia inteiro. Passava dias na biblioteca publica procurando artigos e documentos sobre seriais killers. Eu estava começando a gostar deles. A me identificar.
Mas eu estava sozinha de mais. Tinha começado aquilo tudo, tinha aceitado me vingar, porque alguém tinha me largado, me deixado sem sua companhia. E agora eu não tinha companhia nenhuma.
Me exercitava todos os dias, andando de bicicleta pelo parque e apostando corrida com os carros. Eu sempre ganhava.
No final do terceiro mês já estava entediada. Destino nunca mais apareceu, não recebi nenhuma mensagem subliminar, e tinha certeza de que ele não estava me vigiando. Comprei garrafas e garrafas de bebida, me livrei de todo o alimento que ainda existia na minha casa e me deixei levar pelo álcool.
Não ganhava mais dinheiro trabalhando com coisas úteis, mas passava todas as noites de todas as semanas em boates.
Os homens ficavam me olhando, sentavam-se perto de mim. Tentavam se aproximar e faziam de tudo para conseguir minha atenção.
Exibiam dinheiro, exibiam corpo, exibiam palavras. Eu não dava a mínima.
Não estava naquele lugar para levar alguns machos para minha casa, ou para ir pra casa deles – mesmo que algumas noites eu o fizesse. Eu estava ali para observar.
Eu gostava de ficar olhando as pessoas dançando, tentando conversar umas com as outras. Eu ficava apreciando a vida dos outros, já que era impossível apreciar a minha.
Ia a vários lugares diferentes, mas um deles me chamou a atenção, e resolvi frequentá-lo.
Era um clube nos subúrbios. Tinha um karaokê, algumas mesas de cartas, caixotes espalhados para as pessoas se sentarem e um bar. O lugar cheirava a cerveja velha e problemas.
Eu ficava vendo os velhos gordos jogando cartas para se mostrar para meninas bonitas, que tinham idade para serem suas netas. Os homens trapaceavam o tempo todo. Só um que jogava limpo.
Era um garoto de vinte e poucos anos, magro e com cabelos encaracolados. Usava óculos, e parecia muito, muito inteligente. Eu só o vi jogando uma vez, mas jogou limpo. E perdeu todo o dinheiro apostado.
Sempre que eu o via, ele tinha uma garrafa de água e um livro na mão.
Não entendia porque ele passava as noites naquele bar barulhento. Se quisesse ler, que ficasse em casa. Mas eu não queria que ele ficasse em casa, gostava de observá-lo.
Enquanto lia, ele fazia expressões de espanto, felicidade, ódio, afeto. Coisas que eu não sentia mais. Eu só sentia curiosidade.
Tudo o que eu queria era saber mais sobre ele. Quem era esse tal homem que preferia ler no barulho, que mudava de sentimento varias vezes em apenas uma frase?
Mas eu não pude descobrir. Todo o meu dinheiro acabou, estava com o aluguel atrasado e não comia a dias. Eu não ligava para a comida, mas realmente precisava de um lugar para dormir.
Enfiei algumas roupas numa pequena mochila, peguei minha bicicleta e sai. Eu gostava muito de observar as pessoas, mas a vida de todos naquela cidade era extremamente chata. Trabalhavam, mentiam, traíam. Ninguém era realmente interessante. Ninguém exceto o cara do bar.
Jurei para mim mesma que ainda iria encontrar com o garoto novamente.
Sai andando na bicicleta pela rua, rumo a estrada. Se eu não encontrasse nada no caminho, poderia me hospedar na toca de um casal de coelhos. Eles provavelmente me receberiam melhor que pessoas normais.
Eu acho que devia ter trocado de sorte com alguém, pois a 30 quilômetros da cidade encontrei uma casinha abandonada.
Era de madeira e tinha três cômodos. O suficiente para mim.
Parecia que com uma leve brisa ela poderia desabar, mas só parecia. A madeira era forte e resistente, quase sem rachaduras.
A casa ficava um pouco distante da estrada, num local seco, sem nenhuma vegetação. Sem vida. As vezes passava um lagarto, um inseto, e com sorte um passarinho.
Aquele lugar era perfeito.
Passei 3 dias na casa. No quarto dia alguém bateu na porta e gritou o meu nome.
Fiquei curiosa, com um pouco de receio. Devia estar delirando. Não atendi.
Passou um tempo e bateram de novo. E de novo, e de novo.
Peguei uma faca, caso precisasse. Como dizem, melhor prevenir do que remediar. Fui até a porta.
Não precisei da faca. Quando descobri quem me chamava, levei um susto e deixei-a cair no chão, fazendo um baque.
Socorro.

4.3.09

O Bilhete - cap. 5

Tudo já estava muito escuro. Deviam ser 2 da manhã.
O hotel em que Amadeo jazia deitado já tinha desaparecido de vista, mas eu ainda estava muito longe de casa.
Eu estava caminhando há horas. Minha cabeça girava, e eu não chegava a lugar nenhum. No meu divertimento com o garoto, esqueci quem ele era. Esqueci quem era eu mesma. Acho que por isso que na hora me senti ótima ao matar.
Mas depois, sem carros passando na rua e nenhum barulho de vida alheia, eu me coloquei a pensar.
Eu tinha tirado a vida de alguém. De alguém que nem era um alguém direito ainda. Que ainda tinha muito para aprender, vivenciar. E eu que tinha roubado tudo aquilo dele.
Roubar. Acho que essa é a palavra perfeita pra isso, pra tudo. Roubar é a pior coisa que a gente pode fazer. Eu tinha roubado a alma de Amadeo, a essência da vida dele, e agora estava carregando-a nos braços. Eu estava carregando a prova de um assassinato, qualquer idiota conseguiria perceber que eu tinha matado alguém.
Naquele momento, me dei conta de como era estúpida. Destino era o culpado de tudo, tudo. Ele estava me manipulando, colocando coisas na minha cabeça, e eu estava fazendo o papel da boba que fazia tudo.
Vomitei. Já estava na hora de vomitar mesmo. Vomitei meu jantar, o vinho, as palavras e todo o meu ódio. Vomitei minha razão. Destino ia se ver comigo.
Corri o mais rápido possível. Tinha que chegar em casa.
Coloquei a chave na maçaneta com um pouco de dificuldade. Estava tremendo de mais. Antes de abrir a porta, me dobrei sobre os joelhos para recuperar o fôlego. Quando levantei a cabeça, a porta já estava aberta.
Destino estava sentado em um banquinho, me olhando com um sorriso cheio de fúria. Bateu palmas me encarando. Eu podia sentir o cheiro da raiva dele.
Certo, tudo bem, eu pensei. Vou acabar com tudo agora, largar esse trato e voltar a ser como era antes. Qualquer coisa, Amadeo teve uma overdose.
-Destino, eu realmente preciso de te falar uma coisa.
-Eu sei. Eu também tenho que te falar algo. Mas eu tenho todo o tempo do mundo, então diga, vá em frente. O que você realmente precisa me falar? – Ele me respondeu com um tom zombeteiro, como quem já sabe o final da piada.
-Eu não quero mais fazer nada disso. Não quero vingança. Já to bem assim, Zach que se dane.
-Você quer me largar então? – Eu assenti– E como você pretende fazer isso, se as marcas do nosso pequeno acordo já estão no seu corpo?
-Você pode me fazer voltar ao normal, eu não ligo. Pode levar quanto dinheiro quiser também-
O banquinho voou e bateu na parede, fazendo um barulho ensurdecedor. Não fui capaz de terminar a frase, Destino começou a berrar.
-DINHEIRO? Você acha que EU preciso de dinheiro? Não, menina, não preciso de nada! Você já disse que sim, não tem como voltar atrás.
A voz dele ecoava por todos os lados. Todos os vizinhos deviam estar escutando. Aquele homem era louco, eu tinha certeza. Mas o Louco me agarrou pelos braços e começou a falar grosso, me encarando. Só que ele não tinha olhos. E eu me assustei.
-Vim aqui para lhe dar as primeiras instruções. Se você não fizer as coisas como estou pedindo, então não fará mais nada. Tenho certeza de que haverá um espaço no inferno para você, caso eu precise.
Eu não queria que ele roubasse a minha vida. Não estava pronta pra isso. Assenti novamente.
Como qualquer filme de terror que se preze, Destino deveria desaparecer numa nuvem de fumaça e deixar as instruções escritas em sangue na parede, ou em algum código difícil.
Mas isso não era um filme. Era a minha vida acontecendo. Ele usou a porta da frente, e antes de sair enfiou um pedaço de guardanapo entre os meus dedos. Bateu a porta com muita força. Fiquei surpresa com a resistência da minha casa, tinha certeza de que ela iria desabar.
Abri o pequeno papel. Aquele homem realmente era um porco. Haviam manchas de gordura e restos de comida se misturando com as letras de uma pequena palavra naquele guardanapo. Grudei-o na geladeira e fui me deitar. Precisava dormir.
“Treine, treine, treine”. Milhares de vozes estavam sussurrando isso na minha cabeça.
Destino queria que eu treinasse. Eu não queria treinar. Mas precisava.
Não consegui dormir naquela noite e nem nas seguintes. Acho que isso me ajudou a enlouquecer. Também não tinha a menor ideia de como treinar, mas acabei usando a criatividade.
Arrumei um emprego na veterinária. Eu não tinha que fazer muita coisa, apenas matar os animaizinhos que não tinham saída. Também passei um certo tempo num açougue, aprendendo a usar uma faca.
Com o pequeno salário que ganhava, ia ao parque de diversões e treinava tiros. Eu era simplesmente ridícula.

19.2.09

A cor do vinho - cap. 4

Sai de casa feliz aquele dia. O sol brilhava de uma forma diferente. Todos me encaravam.
Eu adorava toda aquela atenção. Sabe como é, quando se passa de gata borralheira pra Cinderela da noite pro dia, a gente só quer aproveitar. Pelo menos isso eu fiz de bom.
Cheguei ao tal ponto de encontro dos meus amigos com alguns vários minutos de atraso. Meu objetivo era ser a ultima a chegar, para ter certeza de que todos os olhos se voltariam para mim.
Foi mais ou menos o que aconteceu.
Coloquei o pé no gramado perto do pátio da escola. E o que se seguiu parecia mais uma cena de filme.
Um ventinho bateu e brincou com meus cabelos. Os meninos se viraram e me encararam. Seus queixos caíram.
Se remexendo debaixo daqueles uniformes de futebol, alguns esfregaram os olhos, para ter certeza de que estavam vendo direito. Outros soltaram assobios e se aproximaram. No final, tinha uma rodinha ao meu redor, os olhos querendo aprisionar cada mínimo detalhe. E eu de pé, sorrindo, contando uma mentira para explicar tal mudança, fazendo movimentos exagerados com a cabeça, olhando os garotos nos olhos.
Como era de se esperar, logo depois daquela agitação recebi uns três convites para jantar. Já que não tinha muita coisa para fazer, aceitei um.
O nome do menino era Amadeo. Nunca gostei dele. Sempre o mais bonito do grupo, tinha tanto orgulho que, se fosse comestível, dava pra acabar com a fome no mundo. Achei que podia ser uma boa vitima.
Saímos naquela mesma noite. Ele me pegou em casa (e se assustou com o buraco em que eu morava) em seu carro importado, elogiou minha roupa (não era nada de mais. Na verdade já tinha usado aquela blusa três vezes) e me levou para um restaurante de um hotel.
Eu nunca tinha ficando tanto tempo assim em um lugar tão cheio de pessoas ricas e fúteis. Amadeo era um deles.
Ficava o tempo todo falando do seu dinheiro, dos seus planos para o futuro, dos seus contatos pelo mundo afora. Ria alto de mais e tentava me tocar com grande frequência. Eu não gosto de pessoas tocando em mim. Ele teve muita sorte da faca não ter ponta .
Já tinham se passado 3 horas naquele lugar e eu não tinha conseguido me divertir. Aquela comida requintada de mais não era boa, e meus ouvidos queriam sangrar com tanta baboseira que Amadeo falava. Aquela noite parecia ser a pior da minha vida. Estava prestes a me levantar, mas ele me impediu. Acho que foi a primeira vez que meu acompanhante prestava atenção em mim e não no próprio umbigo. Ele segurou a minha mão.
-Ei, Íris, ta tudo bem? Ta curtindo a noite? Se você não gostava desse tipo de comida, tudo bem.
Ele me deu atenção. Agora vou me aproveitar.
-Não se preocupe Amadeo, tudo estava ótimo. Maravilhoso. É que eu to um pouco cansada, sabe. Muita coisa acontecendo na minha vida, e já ta um pouco tarde...
-Estamos em um hotel, linda. Se você quiser, podemos ficar em um quarto.
-Se você não se importar... – Ele tinha chegado ao ponto. Falou a frase correta. Hora de me divertir.
-Claro que não me importo! Pode ir para o elevador, eu vou chamar o garçom.
Procurei um mapa, segui por uma série de corredores e me perdi. Me perdi umas 5 vezes. Mas enfim cheguei no quarto. E Amadeo já estava lá.
Havia uma garrafa de vinho sobre a mesa, junto com alguns botões de rosa. Eu estava rolando de rir por dentro.
Ele saiu do banheiro vestindo um roupão. Parecia um daqueles magnatas podres de rico que usam seu dinheiro para conquistar mulheres maravilhosas. Resolvi entrar no teatro.
Tudo o que se seguiu foi nojento. Eu não gostava dele. Ele gostava do meu corpo. Nos deitamos na cama e eu tive a brilhante ideia de abrir o vinho. Na verdade, foi a melhor ideia da noite.
Eu abri a garrafa e me deitei ao lado de Amadeo. Sorri da forma mais assustadora que podia. Comecei o meu discurso.
Perguntei se ele gostava de vinho. Ele disse que sim.
Deixei cair um pouco de vinho na boca dele.
Perguntei se ele gostava de mim. Ele disse que sim.
Fiz a mesma coisa.
Perguntei se ele se divertia enganando garotas com toda aquela grana. Ele se assustou. Tentou falar alguma coisa, se proteger sob as palavras. Mas acabou se afogando nelas.
Virei a garrafa de uma vez pela garganta do garoto. Nunca gostei dele mesmo.
Depois de se engasgar um pouco, ele ficou meio roxo, da cor do vinho. Ficou em silencio. Eu gostava mais dele assim, quieto. E depois dormiu.
Fiquei encarando aquele corpo inerte por alguns segundos. Ele realmente era bonito quando de boca fechada.
Limpei o rosto do garoto, troquei os cobertores sujos de vinho por cobertores limpos, coloquei-o deitado, parecendo que estava dormindo e saí.
Não sei se foi premonição, intuição, pressentimento ou só um arrepio, mas senti que devia voltar pra minha casa o mais rápido possível.
Aquilo tudo parecia um jogo. Matar, fugir. Eu estava me divertindo.

14.2.09

Memórias - cap. 3


Não quero imaginar o que vai acontecer agora. Destino me pediu para treinar com coisas pequenas, coisas que não respiram. Mas esse velho me da pena. Eu sinto que o conheço de algum lugar.
A adaga está fria contra a minha pele, me faz tremer. Mas eu não vou parar de andar.
É nessas horas que gosto de relembrar o que aconteceu comigo, para ver se tudo faz algum sentido, para saber se estou no caminho certo.

-Então vou te dar instruções. Você deverá segui-las a fio, sem nenhum erro. Por enquanto, apenas irei treiná-la. No final, você terá o que quiser.
Ótimo. Tudo o que eu queria era isso. Mas quando virei o rosto, o homem tinha desaparecido. Não achei tão estranho assim, ele podia ser um enviado. Podia ser meu pai, quem sabe.
Me levantei e voltei para casa, ansiosa pelas instruções.

Fiz o caminho de volta cantarolando. As pessoas me encaravam.
Raios de felicidade deviam estar saltando para fora do meu corpo. Uma senhora atravessou a rua para me evitar e algumas crianças saíram correndo. Devem ter pensado que eu estava bêbada.
Cheguei em casa mais rápido que o normal. Abri a porta do cubículo com uma cama, um banheiro e pacotes de comida pronta acumulados pelos cantos e entrei, passando para dentro com um passo de dança.
Tudo parecia maravilhoso de mais. Parecia de tinham passado uma mão nova de tinta naquele quadro velho e desbotado que era minha vida.
Fui lavar o rosto. Me olhei no espelho. E gritei.
Não foi de susto. Bem, meio que um susto. Mas o que senti foi uma surpresa irresistível, uma surpresa boa.
Eu me vi no espelho, e estava linda. Minha beleza não era normal, mas era uma beleza sem igual, que por mais que possa machucar, nos faz querer mais. Era uma beleza sádica.
Eu estava maior e mais magra, meus dedos mais longos. Eu não conseguia acreditar. Devia estar sonhando.
Toquei o meu rosto e descobri. Era realidade. Sorri.
Meu sorriso estava assustador, de dar calafrios. Parecia com o sorriso natural e falso das bruxas que atraem animais pequenos e peludos para dentro de casa.
Eu parecia uma bruxa. Um fantasma. Um ser qualquer, mortífero e lindo. E vou me aproveitar disso.
Não dormi. Passei aquela noite testando meus novos dotes. Eu estava mais leve do que nunca. Dancei, fazendo com que meus movimentos bruscos parecessem graciosos naquele novo corpo alongado.
Fiz malabarismo com as facas pontudas guardadas na gaveta, sem sofrer nenhum arranhão. Saí para rua e segui silenciosamente os casais desatentos para pregar-lhes sustos. Ninguém conseguia me pegar no flagra.
No dia seguinte abusei. Peguei uma roupa que tinha ganhado de um amigo, porem nunca tinha usado, e a vesti.
Era um vestido curto, vinho, de seda. Simples. Prendi um botão de rosa negra em uma das alças e sai. Estava louca para ver a reação dos garotos.

11.2.09

Agora - cap. 2

Agora, neste instante, estou sentada debaixo de uma chuva que parecer ter o objetivo de engolir a Terra.
Eu adoro a chuva. Adoro o humor dela. Tem aquelas chuvas suaves, que querem molhar a terra e divertir os casais. Aquela chuva mais forte, que deixa um cheiro de natureza no ar e nos faz ter vontade de ficar em casa e tomar um chocolate quente. E tem aquelas chuvas, como a que está caindo agora, que querem destruir. Matar. Envolver as cidades em suas águas e afogar tudo e qualquer coisa que respire. Ou não.
Eu realmente não ligo muito se me resfriar. As gotas que caem são gordas e pesadas, são frias. E vem junto com um vento. O céu está chorando.
Certamente vocês já sabem de duas coisas sobre mim: ando com meninos e acredito no além. Mas acho que estão curiosos em saber mais. Eu estaria.
Como o único barulho que consigo escutar agora e de água caindo, e tenho certeza de que meu dever demorará um pouco para ser cumprido, irei contar-lhes um pouco sobre mim. Ou sobre como eu era antes de conhecer Zach ou Destino.
Meu nome é Íris. Não sei se foi ideia dos meus pais ou alguma maluquice da Bruxa, que diz que esse nome tem tudo a ver comigo, mas meu nome é Íris. E eu adoro ele.
Tenho cabelos pretos. Muito pretos. E os olhos verdes. E só, nada mais de especial. Várias cicatrizes pelo corpo (marcas da minha amizade com garotos) e 1 metro e 85 de altura.
Sou o cinismo em pessoa, porém não sou falsa. Tudo que tenho pra falar mal de alguém ou eu guardo, ou falo para a pessoa. Não sou má.
Dizem que meu sorriso é meio assustador, já que meus dentes são meio pontudos. Mas eu só sorrio pelas causas normais, não sou sádica nem nada.
Em brincadeiras de ‘que animais seriamos se não fossemos pessoas’, eu digo que sou uma gata. Digo isso pois sou sorrateira, ando sem fazer barulho nenhum, sem deixar rastros.
E minha voz lembrava folhas secas se partindo e o gotejar de água contra pedra
.
Infelizmente, terei que deixar minha descrição por aqui. Parece que meu convidado, um velho lá pros 70 anos se escondendo da chuva com um jornal, puxando um menininho pela mão, acabou de chegar.
E eu o segui.

8.2.09

Provavel Começo

Sou uma menina normal. Exceto pelo fato de andar mais com os meninos e ter uma certa ‘paixão’ pelo além.
Sou órfã, perdi meus pais não sei como. Nunca se deram ao trabalho de me contar. Fui criada em um lar para meninos. O para meninas estava sem espaço. E a mulher que nos alimentava se dizia uma Bruxa. Vivia lendo o futuro nas estranhas de pobres animais e nos contando historias de feitiços.
Como da pra perceber, sempre fui meio jogada de lado. Minhas exigências ficavam para segunda opção.
Até o dia que eu o conheci. Estava acostumada a andar com meninos, já não ligava muito pra quando eles tiravam a blusa ou sussurravam no meu ouvido. Mas com ele foi diferente.
Conheci Zach num dia como todos os outros. Estava treinando minhas falsas manobras de skate e me machucando ao tentá-las. Não ligava muito para o que as pessoas pensavam, mas ele percebeu que meu joelho estava sangrando e foi me ajudar.
Ficamos amigos. E me apaixonei por ele.
A partir daquele dia eu tinha uma rotina diferente. Ia pra escola, dava uma volta com os amigos e depois passava o resto do dia com Zach.
Ele fazia tudo parecer maravilhoso, sempre ria comigo. Ele fazia com que eu me sentisse especial. Mas eu tinha medo.
Ele era incrível de mais, e eu era sem graça de mais. Ele não podia querer ficar comigo, devia ser parte de uma aposta ou algo do tipo. Mas eu o amava.
Faziam dois meses que estávamos juntos. Eu podia ter apenas 18 anos, mas tinha certeza de que aquilo era pra sempre.
Eu estava esperando Zach na praça. Ele estava um pouco atrasado, mas mesmo assim esperei. Estava feliz de mais para me preocupar. Só que duas, três horas se passaram, e quando começou a escurecer, comecei a chorar.
Ele não viria. Não iria me ligar mais. E tenho certeza de que os meninos que me encaravam de longe sabiam de alguma coisa.
Ia me levantar e voltar pra casa, mas um homem apareceu, se sentou ao meu lado, e me pediu para ficar.
Ele se apresentou.
-Boa noite menina. Sou Destino.
Nome engraçado, pensei. Mas não tive tempo para pensar mais, ele continuou falando.
-Estou te observando há um bom tempo. Acho que sei o suficiente sobre você para falar que, depois desse fracasso de relacionamento, você está convicta de que viver não vale mais a pena. Ou de que quer se vingar.
Ele estava certo, mas achei engraçado. Como ele podia saber tanto sobre mim?
-Deve estar se perguntando uma série de coisas, mas agora não posso responder. Estou aqui para te ajudar. A se vingar, claro. Se quiser morrer, procure minha irmã.
-Eu quero me vingar.
Minha voz não falhou. Eu estava fazendo a coisa certa, tinha certeza.
-Então vou te dar instruções. Você deverá segui-las a fio, sem nenhum erro. Por enquanto, apenas irei treiná-la. No final, você terá o que quiser.
Ótimo. Tudo o que eu queria era isso. Mas quando virei o rosto, o homem tinha desaparecido. Não achei tão estranho assim, ele podia ser um enviado. Podia ser meu pai, quem sabe.
Me levantei e voltei para casa, ansiosa pelas instruções.
Ah, como eu era ingênua.

3.2.09

E O Grande Temido ..

Primeiro dia de aula.
Eu acho que todo mundo, ou pelo menos 80% das pessoas que passaram pela experiência do 'primeiro dia' sofreram com o frio na barriga e a insegurança.
Bem, vai ser tudo meio que novo. Sua turma pode ser nova, o material, as vezes tem um aluno novo, e até a escola nova. E a gente fica naquela coisa de aceitação:
"Será que aquele cara gato vai ver que eu engordei?"
"Ai caramba, acho que ta todo mundo me encarando"
"Que que vai ser de mim sem minhas amigas na mesma turma"
É, eu já passei por isso. Hoje.
Foi meu primeiro dia de aula na minha escola que é careta elevada ao cubo. Bem, já estou há três anos lá, mas agora muuuita coisa mudou.
Estou no 9° ano (se você esperava uma filosofa da faculdade, desculpe, não sou), comecei a estudar de manhã e os professores misturaram todas as turmas.
E pra piorar tudo, minha série é meio que 'a mais nova'. Porque do oitavo ano pra baixo, as aulas são à tarde.
Então, como qualquer garota normal, sai de casa com tremedeiras nas pernas e cheia de ansiedade. Mas quando cheguei na porta da escola, tudo parou.
É que eu pensei. Pensei que não precisava ligar para as coisas que os idiotas dos mais velhos pensavam. Pensei que, independentemente da turma em que eu estiver, vou sempre ter minhas amigas. Pensei em muitas coisas e mais um pouco, e acabei tornando meu primeiro dia um dia banal, como todos os outros na escola. Tá, quase todos. Porque os dias de prova, para mim, trazem mais ansiedade que 100 primeiros dias.
Se você tiver a síndrome do primeiro dia, pare pra pensar um pouco. As vezes pode ajudar bastante.

2.2.09

Aula de Redação - 2

Tema: O que é liberdade ? Você é livre ?

A imagem básica da liberdade é o passarinho, sejamos sinceros.
Passarinho, aquele animal que voa.
Mas ele não é tão livre assim. Quero dizer, eles vivem presos em uma rotina. Voar, construir um ninho, guardar comida, botar ovos...e tem aqueles passarinhos executivos que vivem migrando. Todos os passarinhos tem essa rotina. Exceto aqueles que vivem presos e falam, claro.
Se fosse realmente um bicho livre, o passarinho iria sair da rotina.
O pardal deixaria de construir o ninho num ipê para construir num pinheiro, viraria vegetariano e seu parceiro seria um bem-te-vi. Uma vida assim, sem preconceitos.
O pardal, então, aprenderia a falar com a maritaca para nos responder uma pergunta:
-E então, pardal, o que é ser livre ?
-Sair da rotina - diz o animal, com certo sotaque - e gostar disso.

1.2.09

Aula de Redação - 1

Muitas pessoas definem a vida por momentos.
Algumas acham que a vida é vivida nos momentos com amigos. Outros gostam mais daqueles momentos "naturebas", fazendo trilhas, pescando.
E, provavelmente todo mundo, fala que a vida é definida por graaandes momentos.
Eu discordo.
Para mim, os momentos que mais definem a minha existência são pequenos.Minúsculos.
O meu favorito é celebrado toda sexta. Sexta-feira é dia de lasagna.
Aquele barulhinho que a lasagna faz quando a gente enfia o garfo nela... É incrível. Me faz sorrir.
Agora, se me dão licença, estou sentindo cheiro de lasagna pronta. Hoje é sexta.


Porque 'aula de redação'?- Nas aulas de redação da minha escola a gente não faz nada. Bem, quase nada. Mas a professora manda uns temas pra gente fazer texto de dever. Tem alguns que eu adoro. Esse é só o primeiro.

30.1.09

Cães, cachorros e filhotes

Cachorrinhos fofos e seus donos não são um tema exatamente original. Mas o que posso fazer? Eu tenho o meu cachorrinho e passei um mês sem vê-lo.
Não vou mentir. Foi realmente difícil. Ligar para a minha mãe e escuta-la dizendo que 'ele esta ótimo, aqui do meu lado'. Não bastava saber que ele tava comendo direito, indo no banheiro e destruindo os bichos de pelúcia. O que eu queria mesmo era agarrar aquela bola de pelos branca, suja e fedida e só largar quando ele começasse a se debater.
Quem tem um cachorro sabe disso. E pra quem não tem, vou contar uma coisa que não deve ser novidade para os que viram o filme detresloongashoras Marley e Eu ou que leu o livro muitobomporsinal com o mesmo titulo: seu cachorro vai ser sempre seu amigo. Seu melhor amigo.
Não importa se você for rico ou pobre, se você passa pouco tempo com ele ou se você fede. Só de fazer um carinho no cachorro, dar um pouco de comida, ele vai estar com você. Pra Sempre.
E posso te dizer que cachorros são bem melhores que pessoas. É, tem aqueles que mordem. Mas pense assim: se ele te morde, tá pelo menos falando 'na cara' que não gosta de você. Não fica comentando seus foras por ai.
Não estou dizendo para você evitar as pessoas e viver apenas com amigos animais. É só uma dica. Você pode adotar um cachorrinho por aí, e ter certeza de que depois daquele dia terrível, dele vai ta te esperando com um rabo abanando e um fuçinho molhado para receber você.

27.1.09

Carta


Ao ladrão do meu sanduiche.
Sim, eu sei quem foi que roubou o meu sanduiche. O meu querido sanduiche com atum, maionese, ketchup, alface, tomate, banana, carne, molho especial e outros condimentos.
Ninguém resiste àquele monte de comida junta entre dois pedaços de pão com picles de sobra.
Agora, se você, ladrão de sanduiches, quiser viver, traga-me amanhã, às 2 e 43 da tarde, o meu sanduiche. E sem nenhum grão de gergelim a menos !
Grata.
Acho incrível como cada vez nos preocupamos mais com coisas estúpidas e no final recorremos á violência

24.1.09

Era Uma Vez


Não se preocupe. Não estou aqui para contar historias de princesas, príncipes e bruxas. Não vou relembrar como foi que eu me senti ao escutar historias em que madrastas atormentavam suas filhas postiças, e como achava magico quando fadas madrinhas apareciam e 'salvavam o dia'.
Só fiquei com vontade de comentar um pensamento que me veio a cabeça. Um pensamentozinho.
Acabei de descobrir que não gosto muito dessas princesas que se deitam numa cama, deixam o tempo passar e esperam o príncipe para salva-las de sua prisão e matar a bruxa.
Bela Adormecida, Cinderela, Branca de Neve. Todas essas ficaram paradas e esperaram o destino fazer sua historia. Não gosto delas.
Gosto é da Ariel (pequena sereia) e da Bela (de bela e a fera). As duas lutaram. A primeira, para conseguir o que queria, fez uma troca com uma megera. Passaram a perna na sereia, mas, mesmo assim, sem nenhum macho man com uma espada, ela conseguiu se recuperar, conseguiu realizar seu sonho. Sozinha (não completamente sozinha, sabe, com uma mãozinha aqui, outra ali).
A Bela é outra que lutou. E acho que sua historia traz uma mensagem linda. Nela não tem nenhuma bruxa, é um ser humano que é malvado mesmo. Essa historia dá um up no nosso senso de real. Sim, os moveis e objetos falam, mas isso é só um detalhe. Esse conto de fadas mostra como homens podem ser malvados, mas também mostra como podemos enfrentar qualquer coisa.
Acho que todos nós vivemos nossos próprios contos, alguns são a Branca de Neve (que deixam a vida seguir, sem dar um rumo pra ela) e outros são a Ariel (que fazem acontecer). E eu poderia dizer que todos vivem felizes para sempre, mas que graça tem isso.

23.1.09

Meio


Entrei correndo em casa. Lágrimas escorriam pelo meu rosto. Peguei o rádio e o sintonizei entre duas estações, para que apenas aquele chiado irritante fosse audível. Encostei a cabeça na caixa de som e deixei o barulho escorrer para dentro dos meus ouvidos.
Não queria escutar nada. Já bastava a consciência de que os mortos me amaldiçoavam lá fora. Eu não queria ouvir meu coração pulsando, me dizendo que eu o amava. Sou uma assassina, não posso amar ninguém !
Acabei dormindo. E sonhei. Sonhei que estava no castelo de Sonho, e ele me esperava.
Ainda estava tensa.Ele estendeu a mão, mas não deixei que me tocasse. Me afastei.
-Não se preocupe - Ele disse - logo logo minha irmã irá busca-la.
Alivio. Foi tudo o que eu senti no momento. Há anos que eu esperava que a Morte me buscasse.
-Porém - Sonho continuou - Destino anda a sua procura. Me parece que ele escreveu um capitulo inteiro sobre você em seu livro.
Empalideci. O irmão mais velho de sonho. Tudo que eu não queria fazer era encontrar com ele. Novamente.

O texto acima é de minha autoria, porém, as personagens Sonho, Morte e Destino são frutos da brilhante mente de Neil Gaiman (que eu adoroo).

21.1.09

O Dia Em Que A Terra Parou


Tiro o meu chapéu para os efeitos especiais desse filme.
A historia é legal, sim. Mas os efeitos especiais são incríveis. Seu eu pudesse eu casava com eles. Mas, infelizmente, não posso, e isso faz com que meu objetivo seja casar com um ator rico e famoso.
Ta, eu nem quero casar. E vou parar de fugir tanto assim do assunto. Estou aqui pra falar dos efeitos especiais.
Eles são tão mágicos, distorcem a realidade de uma forma tão perfeita que nos deixa embasbacados. Às vezes vemos um cara verde voando nas telas de cinema e por um momento conseguimos acreditar que eles realmente existem.
E o ‘efeito especial’ mais popular entre os jovens pode ser baixado em sites e precisa de manual de instruções. Ele se chama photoshop.
Hoje em dia, as revistas são tão alteradas por essa ferramenta que, se as espremer-mos, é possível que ‘pingue’ o tal produto.
A era da maquiagem e das lipos já se foi. O tchã do momento e tirar as gordurinhas e esconder as imperfeições com o photoshop.
Por isso, se você estava pensando e gastar o dinheirinho daquela viagem com uma plástica ou horas na academia, re-pense. Você pode muito bem alterar uma foto sua no photoshop e falar que é a roupa que te engorda.

19.1.09

'Todo fã é um idiota'


"(...)Antes de tudo, é preciso deixar claro: fã é todo aquele ser que chora por seu ídolo, que coleciona pastas e pastas com fotos de seu objeto de desejo, que tem seu quarto forrado de pôsteres do alvo de seu fanatismo (palavra que, não à toa, originou o termo "fan" ou "fã", dando uma 'abrasileirada'), que chora na porta de camarim, que passa dias e dias na fila, esperando o momento de entrar no local onde acontecerá o show de seu "amor não correspondido". Ou seja, é o retrato nu e cru, despido de qualquer racionalidade, de um idiota.(...)"

Isso diz Regis Tadeu .


Então, caro leitor, se você não quiser ser um idiota, vamos parar de chorar quando alguem que você adimira (pode ser um pintor, cantor, ator, sua mãe) faz uma coisa completamente melhor e maior que tudo.

Tudo bem que existem aqueles fans histericos. Mas, hei, nao tem uma musica que diz 'É preciso amar-aar as pessoas como se não houvesse amanha'? Então pode-se dizer que os tais "idiotas" fazem isso: amam seus idolos como se nao houvesse amanha.

16.1.09


"Emo is so yesterday . /anonymous"

14.1.09

Big Brother a preço de feira


Primeiro vamos todos falar a verdade. Eu admito: assisto Big Brother. Adoro ver as coisas ridículas que aquelas pessoas fazem para ganhar um milhão de reais.


E você também assiste. Como eu sei disso ? Simples. Nesse programa tem várias coisas que podem chamar atenção. Tem aqueles que assistem porque realmente gostam (só não sei do que), aqueles que assistem por causa daquele cara lindo, os que gostam porque não tem nada pra fazer, as pessoas curiosas que vivem de fofoca da vida alheia...e assim vai.


Voltando à sinceridade, temos que parar e pensar nisso. Big Brother tira o seu tempo. Tirando seu tempo, tira seu dinheiro. E como você não consegue viver sem as futilidades desse programa, vamos pensar em um Big Brother mais barato, a preço de feira.


Seguindo algumas regras do filme Disturbia( Paranóia em português. Eu gostei muito), você deve ficar sentado em uma janela de sua casa com filmadoras, binóculos e maquinas fotográficas. Pronto. É só espiar seus vizinhos que você tem um Big Brother ao vivo, colorido, que não prejudica o meio ambiente, e traz muito mais adrenalina quando seu vizinho te percebe e você tem que se esconder.


Se não quiser praticar esse novo 'esporte', tudo bem. Foi uma dica. Mas de uma coisa tenha certeza: os seus vizinhos te observam.

12.1.09

"Our daydream spills from my gold head
Breaks free of my wooden neck
Left a nod over sleeping waves
Like bobbing bait for bathing cod
Floating flocks of candle swans
Slowly drift across wax ponds"
Behind the sea - Panic at the Disco

9.1.09



"-Certo. Agora, meu conselho tem duas partes. O que quer que você faça, proteja aqueles de quem gosta. Sem eles, a vida é mais triste do que se pode imaginar. Uma frase óbvia, sei, mas não menos verdadeira por isso. (...) "

Oromis, pág 580 do livro Brisingr (Christopher Paolini)

7.1.09


"I'm going to live my life. And I don't care how long it takes to find my destiny. I'll never stop"

Memória de um passageiro de avião

A vontade que eu tenho agora, ao olhar pela janela do avião, é de pular e ver o que acontece.
Está escuro, as nuvens estão num tom de cinza agradável logo abaixo da janela. Estão todas juntas, lembram um mar de travesseiros. E a lua, conhecida bola de queijo, está ali na frente, do tamanho de uma uva passa.
Se eu pulasse, iria flutuando aos berros até minhas costas tocarem a umidade das nuvens. Depois, numa fração de segundo, me viraria de barriga baixo e começaria a voar dentro de algumas Cirrus, Cumulos, Nimbus e Estratos.
Abrindo bem os braços, sentindo gotas de água e vento no meu rosto, iria me encher nas nuvens de algodão doce e beber o máximo nas de guaraná. Me pintar de rosa, azul, vermelho, nas nuvens coloridas do por do sol. E depois que me cansasse, iria descer.
Fazer força para baixo e cair em alta velocidade, em direção a um mar inexistente, com toda a adrenalina possível e um sorriso no rosto. Por que demorei tanto a fazer isso?
Quando estiver a um centímetro de estatelar no chão, farei a curva e voltarei a subir, debochando das lentas águias que eu deixara para trás. E sentindo facadas do vento frio, vou até a lua para pegar o queijo que eu há pouco admirava.
Depois de toda a aventura um descanso é muito bem vindo, então o melhor a fazer seria planar em direção às nuvens e me repousar na maior e mais fofa que poderia ver.
Pena que aeromoça já percebeu que estou forçando a porta.