15.3.09

Sentimentos - cap. 6

Foram três meses nessa rotina estúpida de brincar de assassina. Depois que me cansei da veterinária, resolvi ir caçar num bosque perto da cidade. Também me cansei disso.
Não consegui passar nem uma semana no açougue. Transformava todas as carnes em pequenos cubos, o dono me chamou de louca.
No segundo mês eu resolvi parar com tudo. Parei de trabalhar, larguei a escola, nunca mais falei com meus amigos. As vezes eu os via na rua, eles me encaravam e cochichavam entre si, mas nunca chegavam perto.
Passei a assistir mais televisão, ficava vendo seriados de detetives o dia inteiro. Passava dias na biblioteca publica procurando artigos e documentos sobre seriais killers. Eu estava começando a gostar deles. A me identificar.
Mas eu estava sozinha de mais. Tinha começado aquilo tudo, tinha aceitado me vingar, porque alguém tinha me largado, me deixado sem sua companhia. E agora eu não tinha companhia nenhuma.
Me exercitava todos os dias, andando de bicicleta pelo parque e apostando corrida com os carros. Eu sempre ganhava.
No final do terceiro mês já estava entediada. Destino nunca mais apareceu, não recebi nenhuma mensagem subliminar, e tinha certeza de que ele não estava me vigiando. Comprei garrafas e garrafas de bebida, me livrei de todo o alimento que ainda existia na minha casa e me deixei levar pelo álcool.
Não ganhava mais dinheiro trabalhando com coisas úteis, mas passava todas as noites de todas as semanas em boates.
Os homens ficavam me olhando, sentavam-se perto de mim. Tentavam se aproximar e faziam de tudo para conseguir minha atenção.
Exibiam dinheiro, exibiam corpo, exibiam palavras. Eu não dava a mínima.
Não estava naquele lugar para levar alguns machos para minha casa, ou para ir pra casa deles – mesmo que algumas noites eu o fizesse. Eu estava ali para observar.
Eu gostava de ficar olhando as pessoas dançando, tentando conversar umas com as outras. Eu ficava apreciando a vida dos outros, já que era impossível apreciar a minha.
Ia a vários lugares diferentes, mas um deles me chamou a atenção, e resolvi frequentá-lo.
Era um clube nos subúrbios. Tinha um karaokê, algumas mesas de cartas, caixotes espalhados para as pessoas se sentarem e um bar. O lugar cheirava a cerveja velha e problemas.
Eu ficava vendo os velhos gordos jogando cartas para se mostrar para meninas bonitas, que tinham idade para serem suas netas. Os homens trapaceavam o tempo todo. Só um que jogava limpo.
Era um garoto de vinte e poucos anos, magro e com cabelos encaracolados. Usava óculos, e parecia muito, muito inteligente. Eu só o vi jogando uma vez, mas jogou limpo. E perdeu todo o dinheiro apostado.
Sempre que eu o via, ele tinha uma garrafa de água e um livro na mão.
Não entendia porque ele passava as noites naquele bar barulhento. Se quisesse ler, que ficasse em casa. Mas eu não queria que ele ficasse em casa, gostava de observá-lo.
Enquanto lia, ele fazia expressões de espanto, felicidade, ódio, afeto. Coisas que eu não sentia mais. Eu só sentia curiosidade.
Tudo o que eu queria era saber mais sobre ele. Quem era esse tal homem que preferia ler no barulho, que mudava de sentimento varias vezes em apenas uma frase?
Mas eu não pude descobrir. Todo o meu dinheiro acabou, estava com o aluguel atrasado e não comia a dias. Eu não ligava para a comida, mas realmente precisava de um lugar para dormir.
Enfiei algumas roupas numa pequena mochila, peguei minha bicicleta e sai. Eu gostava muito de observar as pessoas, mas a vida de todos naquela cidade era extremamente chata. Trabalhavam, mentiam, traíam. Ninguém era realmente interessante. Ninguém exceto o cara do bar.
Jurei para mim mesma que ainda iria encontrar com o garoto novamente.
Sai andando na bicicleta pela rua, rumo a estrada. Se eu não encontrasse nada no caminho, poderia me hospedar na toca de um casal de coelhos. Eles provavelmente me receberiam melhor que pessoas normais.
Eu acho que devia ter trocado de sorte com alguém, pois a 30 quilômetros da cidade encontrei uma casinha abandonada.
Era de madeira e tinha três cômodos. O suficiente para mim.
Parecia que com uma leve brisa ela poderia desabar, mas só parecia. A madeira era forte e resistente, quase sem rachaduras.
A casa ficava um pouco distante da estrada, num local seco, sem nenhuma vegetação. Sem vida. As vezes passava um lagarto, um inseto, e com sorte um passarinho.
Aquele lugar era perfeito.
Passei 3 dias na casa. No quarto dia alguém bateu na porta e gritou o meu nome.
Fiquei curiosa, com um pouco de receio. Devia estar delirando. Não atendi.
Passou um tempo e bateram de novo. E de novo, e de novo.
Peguei uma faca, caso precisasse. Como dizem, melhor prevenir do que remediar. Fui até a porta.
Não precisei da faca. Quando descobri quem me chamava, levei um susto e deixei-a cair no chão, fazendo um baque.
Socorro.

4 comentários:

Gabih, ou como preferir me chamar. disse...

EU VOU TE MATAR, continua isso! era o menino do bar? eu vou me matar xD quero saber looogo³

esdras disse...

Gosto da Iris porque ela é surpreendente. Torço para que ela escape dessa enrascada em que se meteu!

Laís Dias disse...

Eu realmente ia postar no outro capitulo, mas na hora eu deixei para depois e ai não pude entrar mais, só hoje que vi que tinha outro post, mas cara!
Eu quero a continuação!Eu preciso!
Tá....muito bom!Eu preciso saber quem esteve na porta!!!
ah!

Gabih, ou como preferir me chamar. disse...

eu acho que é pq se fosse tu seria ele! XD uashuiahiuhasuhausih.
comoelesabeonomeela[?] q