14.2.09

Memórias - cap. 3


Não quero imaginar o que vai acontecer agora. Destino me pediu para treinar com coisas pequenas, coisas que não respiram. Mas esse velho me da pena. Eu sinto que o conheço de algum lugar.
A adaga está fria contra a minha pele, me faz tremer. Mas eu não vou parar de andar.
É nessas horas que gosto de relembrar o que aconteceu comigo, para ver se tudo faz algum sentido, para saber se estou no caminho certo.

-Então vou te dar instruções. Você deverá segui-las a fio, sem nenhum erro. Por enquanto, apenas irei treiná-la. No final, você terá o que quiser.
Ótimo. Tudo o que eu queria era isso. Mas quando virei o rosto, o homem tinha desaparecido. Não achei tão estranho assim, ele podia ser um enviado. Podia ser meu pai, quem sabe.
Me levantei e voltei para casa, ansiosa pelas instruções.

Fiz o caminho de volta cantarolando. As pessoas me encaravam.
Raios de felicidade deviam estar saltando para fora do meu corpo. Uma senhora atravessou a rua para me evitar e algumas crianças saíram correndo. Devem ter pensado que eu estava bêbada.
Cheguei em casa mais rápido que o normal. Abri a porta do cubículo com uma cama, um banheiro e pacotes de comida pronta acumulados pelos cantos e entrei, passando para dentro com um passo de dança.
Tudo parecia maravilhoso de mais. Parecia de tinham passado uma mão nova de tinta naquele quadro velho e desbotado que era minha vida.
Fui lavar o rosto. Me olhei no espelho. E gritei.
Não foi de susto. Bem, meio que um susto. Mas o que senti foi uma surpresa irresistível, uma surpresa boa.
Eu me vi no espelho, e estava linda. Minha beleza não era normal, mas era uma beleza sem igual, que por mais que possa machucar, nos faz querer mais. Era uma beleza sádica.
Eu estava maior e mais magra, meus dedos mais longos. Eu não conseguia acreditar. Devia estar sonhando.
Toquei o meu rosto e descobri. Era realidade. Sorri.
Meu sorriso estava assustador, de dar calafrios. Parecia com o sorriso natural e falso das bruxas que atraem animais pequenos e peludos para dentro de casa.
Eu parecia uma bruxa. Um fantasma. Um ser qualquer, mortífero e lindo. E vou me aproveitar disso.
Não dormi. Passei aquela noite testando meus novos dotes. Eu estava mais leve do que nunca. Dancei, fazendo com que meus movimentos bruscos parecessem graciosos naquele novo corpo alongado.
Fiz malabarismo com as facas pontudas guardadas na gaveta, sem sofrer nenhum arranhão. Saí para rua e segui silenciosamente os casais desatentos para pregar-lhes sustos. Ninguém conseguia me pegar no flagra.
No dia seguinte abusei. Peguei uma roupa que tinha ganhado de um amigo, porem nunca tinha usado, e a vesti.
Era um vestido curto, vinho, de seda. Simples. Prendi um botão de rosa negra em uma das alças e sai. Estava louca para ver a reação dos garotos.

3 comentários:

Pryh. disse...

amei. Escreves muito bem, garota.

Anônimo disse...

O temporal que lavou a alma desta cidade sombria encharcou meu jornal. Tento me esquivar das lágrimas que escorrem do céu. Um garoto franzino e sujo sai correndo de trás de um latão de lixo e agarra meus velhos dedos. Está com medo das sombras desta noite apavorante. Tentei prender o filtro do meu último cigarro entre meus dentes, mas a brasa longa queimou meus lábios murchos.Cuspi. Olhei para o menino molhado. Em seguida, voltei a cabeça em direção ao prédio de Íris. As luzes de seu apartamento estavam apagadas. Quando olhei para o hall da portaria pude perceber apenas a porta de vidro se fechando. Um cheiro forte de mel e rosas invadiu minhas narinas queimadas. Era como se alguém tivesse espirrado um vidro de perfume no meio da praça. A cachoeira que descia do céu cobria as velhas luminárias amarelas da praça. Conseguia ver apenas um metro ou dois a minha frente.Uma ratazana pulou do latão de lixo ao lado. O velho ônibus cuspiu fumaça grossa do motor. Percebi um vira-lata murcho por trás de um chafariz. O perfume de mel e rosas penetrou novamente em meu nariz. O garoto segurava minha mão com força e me olhava. Senti o toque frio do metal em meu pescoço e olhei para trás. Não havia nada. Nada. Passei os dedos da mão esquerda no pescoço e senti a gosma quente. Era sangue. Um corte fino. Rodei a cabeça e percebi um pedaço de pano vinho por trás das palmeiras da alameda central. Meu coração disparou.

Laís Dias disse...

eru nem preciso dizer que vc tá fazendo eu visitar seu blog de meia em meia hora né?
eu quero saber o que aconteceu!e qual será lá vingance!muhawawahawa