20.4.09

Corrida - Cap. 11


Fiquei parada por um longo tempo, estática. Pálida. Não estava conseguindo digerir as novas instruções de Destino.
Peguei a foto e o quadro de horários no chão. A adaga podia ficar lá, não queria tocar nela tão cedo.
Observei a imagem do homem em minhas mãos. Ele continuava tristemente feliz. Eu estava com pena dele. Ele não tinha nem ideia do que iria acontecer.
Como eu gostaria de ser outra pessoa. Ou de ser alguém a mais, ser duas pessoas. Aí poderia lutar comigo mesma. Impedir que meu primeiro eu matasse.
Mas isso era complicado demais.
Desviei minha atenção para o outro pedaço de papel. Era um quadro de horários comum, lembrava aqueles de escola. Havia a hora de ler jornal, o almoço, pegar o filho na escola. Assim se seguia, até as 11 da noite.
Às 11 da noite estava escrito morte.
Ouvi passos do lado de fora da casa. Não passos, era mais um rastejar. Parecia um animal. Mas o som era muito alto para ser um animal.
Quem poderia ser? Ninguém ia até aquela casa, mas nenhuma pessoa anda como um animal. E Nicolas tinha ido dar uma volta, como Destino disse.
Peguei a adaga no chão.
Andei em silencio até a porta. Nem mesmo eu consegui escutar meus passos.
Eu estava começando a sentir medo. O barulho chegava cada vez mais perto. Abri a porta.
Era Nicolas. Um Nicolas quase que irreconhecível.
Ele estava com o rosto coberto de sangue, inchado e roxo. Os braços arranhados e uma perna quebrada. Pelo menos eu não me lembro de ter visto pernas viradas de uma forma tão estranha.
Corri até ele para ajudá-lo. Cada vez que eu tentava levantá-lo, ele gemia de dor.
Carreguei-o até dentro da casa. Uma trilha de sangue nos seguia.
Deitei Nicolas no chão e me pus a pensar. Não tinha ideia do que fazer naquele momento.
Não tínhamos telefone, e demoraria até chegar a cidade.
Além disso, já não éramos completamente humanos. Então os médicos poderiam achar algo estranho no corpo dele, e nenhuma mentira vinha a minha mente para confundi-los.
-Então Nicolas, o que vamos fazer agora?
Eu não esperava resposta. Era uma pergunta retórica. Mas, mesmo assim, Nicolas respondeu.
-Me de água, só isso.
Entre gemidos, ele formou a frase. Achei incrível eu ter conseguido entender aquela serie de grunhidos.
-Ande logo Íris!
Me levantei e corri ate a cozinha. Peguei o ultimo jarro de água fria. Essa coisa de viver longe de supermercados era trabalhosa.
Corri para Nicolas e coloquei o jarro em suas mãos. Ele estava tentando se levantar.
-Agora saia.
Ele disse assim, curto e grosso. Mas não o contestei. Ele estava machucado, com dores. E de mal humor.
Sai da casa devagar. Ainda esperava que ele mudasse de ideia e me pedisse ajuda.
Mas ele não pediu. E assim que eu fechei a porta, ele começou a gemer mais alto. Chegou a gritar de dor. Mas isso não durou nem um minuto.
Assim que a tortura parou, a porta se abriu e ali estava Nicolas, alto, belo, forte e sem cicatrizes, como sempre.
-Você ta... Ótimo!
-É. Essa coisa com o Destino até que tem seus pontos positivos.
Minha língua coçava. Eu estava louca para saber o que realmente tinha acontecido. Mas ele não queria contar. Eu não tinha perguntado, mas se eu tivesse me machucado daquela forma, acho que não gostaria de contar os detalhes para um curioso alheio.
Ele parecia estar feliz com o ‘sucesso’ de sua recuperação.
Assim que passou por mim, começou a correr. Correu rápido, correu pulando, correu de costas, me olhando.
-Então, Íris, estamos muito parados. Vamos dar uma volta hoje, que tal? Jogar bola, correr?
Mais um louco para minha vida. Nicolas devia estar pirando. Há 5 minutos, ele estava jorrando sangue por cada centímetro do seu corpo. Agora estava assim, normal, e com mais energia que nunca.
-Certo. Podemos jogar bola. Mas-
-Mas o que?
-Mas depois você terá de me contar o que aconteceu com você.
-Tá bem. Pegue uma bola dentro de casa. E prepare-se para perder.
Ele deu uma risada sonora. E começou a correr novamente.
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Indico Keane. Os caras fizeram um show no Brasil mes passado e tem uma presença de palco incrivel. A musica tambem é legal. As que eu mais gosto são Pretend That You're Alone e Perfect Symmetry.

4 comentários:

Laís Dias disse...

Então realmente existe a hora da morte, pelo menos para esse cara, apesar de que existem baixas esperanças de que ela dê um jeito de escapar do plano do destino=/
E de minha parte, to nem ai que Nicolas esteja todo arrebentado, ele tem jeito de vilão cafajeste=p

Gabih, ou como preferir me chamar. disse...

Tá muito boom³. o que ele fez? '-'
ela nao pode fazer isso, Destino idiota da porra.

Ana Marta disse...

sente meu novo texto filha . depois leio o seu que o paulo tá chegando
EU TE AMO DEMAIS alice
um beijo

Pryh. disse...

nossa, postei aquilo e logo depois fiquei sem net. :/
tu nem deve lembrar mais e, mas obrigada pelo comentário, tu escreves muito bem também. *-* Acredito que um dia eu venha a ler um livro teu.

Fico feliz que alguem se sinta mesmo que por um momento dentro da minha história, que eu insisto em ocultar em palavras.

Sim, a música é.. linda. (:
obrigada mesmo, beijos.