8.4.09

Livros - Cap. 9


Eu deixei a caixa cair no chão. O mesmo aconteceu com a câmera. E acho que fui infeliz e acabei conseguindo quebrá-la.
Fiquei com muita raiva de mim mesma. Estragar aquela maquina de Polaroid, que nem era minha. Mas eu também estava com medo, muito medo. Ainda não tinha olhado para a porta, mas já imaginava quem estava lá.
Era Nicolas, tremendo, rodeado por sacolas de compras e trouxas de pano jogados no chão. Eu pude perceber as mais diversas frutas. Também haviam livros, livros lindos.
Livros grossos, de capa dura em veludo e com o titulo pintado em ouro. Eu queria tocá-los, eu precisava saber quais segredos eles escondiam.
-Íris? – Nicolas chamou por mim novamente. Eu estava tão entretida com os livros que acabei me esquecendo do medo e de meu companheiro. Olhei para ele com os olhos arregalados.
-Íris, porque você estava mexendo nas minhas coisas? Hein, porque? O que você viu?
-Pare com isso Nicolas. Não gosto que fiquem me perguntando de mais, isso me deixa tonta. Eu mexi porque eu quis, e vi o que meus olhos quiseram ver.
-O que seus olhos quiseram ver?
Ele parecia assustado, mas acho que queria fingir que estava tudo normal. Começou a arrumar as coisas caídas no chão. Ele ainda tremia.
-Eles quiseram ver um papel. Que eu tenho igual. E quiseram ver algumas fotos. Você é louco, porque tira fotos de pessoas dormindo? Onde você arrumou fotos minhas?
Enquanto falava, não tirei meus olhos do rosto dele. Ele hesitava em me encarar.
-Certo Íris, acho que devemos conversar.
Eu ri. Meu riso soou como folhas de papel se rasgando. ‘Você acha’, eu disse.
Ele pegou os livros de uma forma desajeitada, parecia que eles iam despedaçar. Quase que eu levantei para arrancá-los dos braços de Nicolas, mas me segurei.
Comecei a batucar no chão com meus longos dedos. O barulho era seco. Eu estava impaciente. Nicolas fez com que alguns minutos parecessem horas. Demorou, mas ele acabou sentando-se ao meu lado.
-Eu também trabalho com Destino. Eu também achei que minha vida tinha se acabado. Também me iludi, chorei, odiei e matei. Só que foi há bastante tempo atrás. Agora sou apenas eu.
-Como assim Nicolas? Há quanto tempo? Vamos, me conte, está me deixando curiosa.
-Minha historia não é interessante agora. Mas posso dizer que a primeira vez que me encontrei com Destino foi há uns 30 anos atrás. Eu fiz tudo que ele pediu. Ele me pedia pra matar, eu matava. Já não sentia remorso porque eu tava muito triste – tinha perdido toda minha família, amigos e inimigos em um acidente -, mas aí ele me mostrou você. Você seria meu próximo alvo. Mas eu não consegui.
Ele ficou um bom tempo olhando as próprias mãos. Uma lágrima caiu. Eu não gosto de homens chorando. Não que eu não ache chorar coisa de macho, porque chorar é humano, mas eu não sei consolar ninguém. Eu não sabia o que fazer. Então eu sorri. E só.
-Você está sorrindo. É porque não entende pelo que eu passei.
É, vou anotar. Nunca mais sorrir enquanto alguém chora.
-Íris, você se parece demais com uma pessoa muito especial que eu perdi, eu não podia te matar. E eu passei 3 longos anos me torturando e sendo torturado por Destino para te matar. Mas eu não consegui. Aí você foi e causou sua própria morte. Pelo menos agora posso ficar perto de você.
-Minha própria morte? Não, não fiz nada disso. Eu nem sangro mais.Acho que Destino só começou a gostar de mim. Ele meio que me salvou.
Nicolas suspirou e me encarou. Seus olhos brilhavam de fúria. Ele segurou meu rosto entre suas mãos e começou a falar. Ele estava falando grosso, muito grosso. Sua voz ficava chata daquela forma.
-Íris, entenda. Ele sabia que você não ia aguentar, que uma hora ia se entregar. Quando você chegou em casa após matar Amadeo, ele achou que você ia morrer. Mas ele estava errado, você é forte. Eu pretendo te ajudar Íris, querida, vou te ajudar em todos os momentos. Eu já não tenho saída, pois já faz muito tempo desde que Destino me transformou nessa coisa. Mas você ainda pensa, ainda sente algo, mesmo que pouco.
-Então você é tipo um anjo, assim, um ‘anjo-demonio’, que veio para me ajudar, certo?
-Certo.
-Ah, que bom. Eu pensava que você ia me matar ou algo assim.
Ele riu. Eu ri junto. Que pensamento bobo, esse meu. Nos abraçamos. E Nicolas me beijou.
Eu me assustei e o empurrei para longe. Afastei-me. Como homens podem estragar tudo em questão de segundos!
Foi então que me lembrei dos livros. Eu tinha que vê-los. Precisava.
-Porque você trouxe esses livros?
Peguei o maior e mais pesado. A capa era de veludo roxo. Havia apenas o nome do autor impresso. Abri.
As paginas eram grossas, as letras, lindas. Tinham desenhos por todos os lados, princesas pintadas que emanavam uma energia tão maravilhosa. Era um livro de contos de fada, mas eu não conhecia esse.
Folheei os outros cinco livros. Todos lindos, seguindo a beleza e delicadeza do primeiro, com historias desconhecidas e que me fascinavam.
-Você disse que gostava de Contos de Fada – Disse Nicolas -, mas eu acho que Branca de Neve anda muito ultrapassada. Fui na casa de um velho conhecido e peguei esses livros emprestados. Achei que você ia gostar.
Ele estava certo. Eu tinha adorado.
Peguei novamente o livro com a capa roxa, puxei a mão de Nicolas e fui andando para fora da casa.
O sol estava preguiçoso, se recusando a se deitar no horizonte. A luz estava bonita.
Me sentei na entrada. Nicolas fez o mesmo. Abri o livro e comecei a ler, me deliciando com a historia. Meus dedos demoravam-se nas paginas, contornando as ilustrações.
Olhei para Nicolas, sorrindo. Ele me olhou de volta. Me beijou novamente. E dessa vez eu não fugi.
__________________________________________________________
Indico The Kooks. Qualquer musica deles é bem vinda.

3 comentários:

juju disse...

erika , aqui é a ana no blog da giulia . seja nossa seguidora . lovo u !

Laís Dias disse...

Puxa vida, cara, esse Nicolas sabe surpreender!E incrívelmente eu ainda não acredito nem um pouquinho nele=D
Pois é, é a vida.Difícil me convencer. Ainda acho que ele é do mal.E que Destino não vai gostar nadinha disso.Melhor, mais história=D
Ei, vc tem msn?Pode me passar?

Gabih, ou como preferir me chamar. disse...

O destino não vai gostar nada disso. o Amor é tão mal e idiota, gentem. *--*